quinta-feira, 26 de março de 2026

Quando alguém diz “misericórdia, senhor”


Hoje, quando saí pelo portão de casa, a vida não me deixou passar ileso. A cidade já estava em movimento, gente indo, gente voltando, cada um carregando suas pressas invisíveis. E foi ali, entre o dentro e o fora, entre a segurança da casa e a dureza da rua, que uma mulher, magra e alta, me parou. Ela trazia na mão uma sacola de plástico, com alguns pães dentro, o corpo aparentemente cansado e os olhos marejados de quem já pediu muito à vida e recebeu pouco.

O que ela me pediu? Não foi dinheiro. Pediu trabalho. E isso muda tudo.

Disse-me que fazia qualquer coisa — faxina, lavar banheiro, lavar louça, o que aparecesse. Não era só um pedido, era quase um grito baixo, desses que não fazem barulho, mas atravessam. Perguntei até que série ela estudou, e ela respondeu, sem rodeio, com a verdade simples de quem já não tem o que esconder: até a quarta série. Naquele instante, sem perceber, o mundo se reorganizou diante de mim. De um lado, tudo o que a gente costuma repetir — esforço, mérito, correr atrás, “quem quer consegue”. Do outro, aquela mulher, viva, concreta, desmentindo frases prontas com a própria existência.

Eu disse que, se soubesse de algo, a procuraria. E então ela falou baixo, mas fundo, como quem reza sem precisar de igreja: “misericórdia, senhor”.

Essas duas palavras não eram apenas palavras. Eram uma súplica inteira.

Ali, parado no portão de casa, eu entendi que existem momentos em que o debate sobre a sociedade não pode se limitar, como tantas vezes acontece hoje, à divisão entre direita e esquerda. Porque é exatamente ali que ele deixa de ser teoria e vira carne. Eu sei: tem gente que vai olhar para ela e enxergar falta — de estudo, de esforço, de planejamento. E tem gente que vai olhar e enxergar ausência — de oportunidade, de acesso, de cuidado. Não é uma diferença pequena. É uma diferença de mundo.

A fé que nasce do chão da vida, essa que não cabe só nos templos, nunca foi neutra diante disso. O Deus que muitos de nós aprendemos a chamar de Pai não fecha os olhos para quem pede pão — e muito menos para quem pede trabalho. Aquela mulher não estava fazendo discurso, não estava defendendo lado nenhum. Ela só queria uma chance. Mas, sem saber, colocava diante de mim — e de todos nós — uma pergunta incômoda: que tipo de sociedade faz alguém precisar implorar por trabalho logo cedo, na porta da casa de outra pessoa?

Não dá para romantizar isso. Não dá para explicar isso com frases prontas. E, sinceramente, não dá para seguir como se fosse normal. Porque não é. Aquela palavra continua ecoando: misericórdia, senhor. E misericórdia não é sentir pena; é não conseguir mais fingir que não viu. É deixar que aquilo mexa, incomode, desinstale.

Ela seguiu seu caminho. Eu segui o meu. A cidade continuou como se nada tivesse acontecido. Mas alguma coisa ficou ali, parada no portão. Talvez seja isso que realmente importa: não o rótulo que a gente escolhe, não o discurso que a gente repete, mas aquilo que a gente faz depois de um encontro desses. Porque, no fim, a pergunta não é só política. É profundamente humana: quando alguém para na sua frente e diz “misericórdia, senhor”… você consegue continuar como se nada tivesse acontecido?

Leonardo J. D. Campos


segunda-feira, 23 de março de 2026

O som do silêncio e o peso do papel


Muitas vezes, a injustiça não veste máscara de vilão; ela usa o uniforme da burocracia e carrega um talão de multas. Imagine a cena: um homem que dedica a vida a ensinar o encanto das notas musicais, seguindo para mais um dia de trabalho. No trajeto, uma blitz. O que deveria ser um procedimento de rotina torna-se o início de um pesadelo silencioso.

A moto, sua ferramenta indispensável de locomoção e sustento, é apreendida. O motivo? Um “nó” burocrático: o veículo ainda está no nome de um familiar que já partiu, e o inventário — aquele processo lento, caro e distante da realidade de quem vive do próprio esforço — não foi concluído.

A conta é cruel e matemática: o valor para retirar a moto, somado às taxas e trâmites legais, supera o valor do próprio bem. Para o Estado, é apenas um veículo apreendido. Para quem trabalha, é o chão que desaparece sob os pés.

A vida não avisa quando o nó vai apertar; ela simplesmente puxa a corda. O golpe vem seco, num desses dias comuns em que a gente acorda contando os passos e os trocados, com a única ambição de garantir o direito de continuar tentando no dia seguinte. É uma rasteira institucional que não apenas derruba — ela humilha.

Nesse instante, a pergunta que ecoa no asfalto quente é uma só: quando foi que a regra fria passou a valer mais do que a dignidade humana?

Existe um abismo entre o que se escreve nos códigos e o que se vive nas ruas. No papel, a burocracia se justifica; na prática, ela seleciona. E quase sempre escolhe os mesmos: os que vivem no limite, os que não têm advogado, os que não dominam a linguagem dos carimbos, os que não podem errar — porque o erro, para eles, não custa caro, mas tudo.

Não se trata apenas de um bem material. Trata-se de um modelo de Estado que, muitas vezes, é rápido para punir e lento para compreender. Um Estado que exige regularidade de quem nunca teve acesso pleno aos meios para se regularizar. Um Estado que, ao invés de estender a mão, pesa ainda mais sobre quem já carrega o mundo nas costas.

E, no entanto, quando a estrutura falha, o povo responde.

Diante do silêncio da lei, ergue-se o coro da solidariedade. Amigos, colegas e familiares não pedem formulários; oferecem presença. Organizam, mobilizam, constroem uma rede que devolve não só um instrumento de trabalho, mas algo ainda mais essencial: a dignidade ferida.

Mas que isso não nos baste.

A solidariedade é bonita — e necessária —, mas ela não pode ser o remendo permanente de um sistema que insiste em rasgar vidas. Não podemos naturalizar uma cidade, um estado e um país onde sobreviver dependa mais da sorte ou da ajuda dos outros do que de direitos garantidos.

É preciso dizer com todas as letras: não é normal. Não é justo. Não é aceitável.

Precisamos de um Estado que enxergue gente antes de enxergar papel. Que compreenda a realidade antes de aplicar a penalidade. Que proteja o trabalho em vez de inviabilizá-lo.

Porque quando o sistema apreende a ferramenta de quem trabalha, ele não está apenas recolhendo um veículo — está confiscando sonhos, interrompendo trajetórias e aprofundando desigualdades.

E isso, sim, é uma infração grave.

Uma infração contra a justiça social. Uma infração contra o povo. Uma infração contra a própria ideia de humanidade.

Porque hoje é uma moto apreendida. Amanhã pode ser uma multa injusta. Depois, um imposto que sufoca, uma taxa que não cabe no bolso, uma exigência que ignora a vida real. E assim, pouco a pouco, vai se construindo um cotidiano onde o erro do sistema vira culpa do cidadão.

A pergunta que fica já não é sobre um caso — é sobre o rumo: que tipo de sociedade estamos construindo quando viver com dignidade vira um desafio diário? E, mais urgente ainda, até quando vamos aceitar isso como se fosse normal?

Porque, no fim das contas, não se trata apenas de resistir — trata-se de transformar.

Leonardo J. D. Campos

sexta-feira, 13 de março de 2026

O mundo na esquina de casa

No trajeto de sempre, entre uma esquina e outra, o pensamento costuma fugir do horizonte para tentar entender o que nos cerca. A cidade acorda naquele ritmo atropelado que já conhecemos: o suspiro pesado dos ônibus lotados, o som de passos apressados de quem corre contra o relógio e o rosto de cada trabalhador que encara mais um dia de luta.

Foi nesse caminho comum, pelas avenidas Valentim Magalhães, Pedro Américo e Giovanni Battista Pirelli, que algo vem me chamando a atenção nos últimos dias. Ao passar defronte aos postos de combustível, com suas placas luminosas reluzindo números, vejo valores que sobem de um dia para o outro, num fôlego só, quase como se respirassem.

Diante disso, me ponho a questionar se isso não é apenas impressão minha ou se viver está, de fato, ficando mais caro outra vez.

A resposta para essa inquietação, por mais estranho que pareça, não está no frentista, nem na bomba de combustível à nossa frente. Ela mora, na verdade, do outro lado do mundo. Enquanto caminhamos por aqui, o mapa-múndi estremece em tensões que parecem distantes, mas que possuem fios invisíveis conectados diretamente ao nosso bolso.

O conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel ferve em uma região estratégica: o Estreito de Ormuz. Por ali escoa boa parte do petróleo que move o planeta. É uma engrenagem cruel e direta: a guerra ameaça o mar, o valor do barril dispara no mercado internacional e, em um efeito dominó inevitável, os preços sobem na bomba. O frete encarece e o preço do arroz e do feijão salta nas prateleiras do mercado.

É assim que um conflito travado em desertos que nunca pisaremos atravessa oceanos em silêncio e desembarca, sem pedir licença, na esquina da nossa rua. Perceber essa conexão é notar como a política internacional, decidida em gabinetes refrigerados e distantes, acaba pesando na sacola de compras e no aperto de quem precisa fazer o salário esticar até o dia trinta.

Olhando para aquelas placas brilhantes que anunciam os preços, a ficha cai: a política, na sua essência mais pura, não deveria ser sobre quem ganha a disputa de poder, mas sobre quem protege a vida.

Ela deveria existir para zelar por quem acorda antes do sol para garantir o sustento e pelas famílias que fazem contas de cabeça para colocar a janta na mesa. Guerras costumam nascer da sede por território e recursos estratégicos, mas quase sempre deixam como herança apenas o rastro da dor e do sofrimento humano.

No fundo, enquanto retomo meu caminho, olho novamente para os preços no posto e percebo como o mundo é um nó apertado. Estamos todos ligados. Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente este: lembrar aos donos do poder que, acima de qualquer estratégia militar ou barril de petróleo, o primeiro e mais urgente compromisso da política deve ser, sempre e em qualquer lugar, a defesa cega e incondicional da vida.

Leonardo J. D. Campos

quinta-feira, 5 de março de 2026

O Brasil que acorda antes do sol


Hoje acordei às quatro da manhã, como quase sempre. Não há romantismo nisso; é rotina nua e crua. Enquanto a casa ainda mergulha no silêncio, encontro o único momento do dia para organizar a mente antes que o mundo comece a gritar. Fiz o café, vi a gata circular pela cozinha e senti o corpo ainda pesado, pedindo mais alguns minutos de sono. É nesses primeiros gestos simples que me recordo: a vida de verdade não começa nos grandes discursos, mas nas pequenas responsabilidades que assumimos antes mesmo do sol nascer.

Saí às seis e cinquenta, já mais desperto pelo frio da manhã que nos acorda por inteiro. Deixei minha filha mais nova na escola e a vi subir a rampa, de mochila nas costas, falando das tarefas como se aquilo fosse o centro do universo. E, para ela, é. Enquanto ela sumia portão adentro, aquela pergunta que aperta o peito voltou: que país estamos entregando para essa geração? Que escola pública estamos ajudando a construir?

Depois de deixar minha esposa no trabalho, segui pensando na força dessa engrenagem silenciosa que faz o Brasil funcionar. É um exercício diário de planejamento, contas calculadas no detalhe e esforço conjunto. Olhando para essa correria das famílias trabalhadoras, reafirmo algo que não escondo de ninguém: a desigualdade não se cura sozinha. O Estado tem nome, sobrenome e responsabilidade sobre isso. Orçamento tem lado. Num país como o nosso, a neutralidade quase sempre serve para manter privilégios intactos.

No trânsito carregado e estressante, o "Brasil real" bate à janela. O ônibus passa lotado, com gente equilibrando o corpo e as preocupações; os motoboys cruzam as avenidas porque cada minuto é renda; uma mulher segura a bolsa junto ao peito, talvez refazendo as contas sobre o que pagar primeiro. É diante desse quadro que qualquer debate ideológico precisa aterrissar. O Brasil concreto não vive de polarização digital; ele vive de salário, de transporte que funcione e de comida na mesa.

Entre um semáforo e outro, lembrei-me que foi nesse chão que aprendi que a fé não é uma fuga do mundo. O Evangelho que sigo exige um compromisso inegociável com a vida aqui e agora. O Cristo que me inspira nasceu na simplicidade de uma manjedoura, viveu entre os pequenos e denunciou as injustiças do seu tempo. Por isso, para mim, fé e justiça social são partes do mesmo corpo. Minha espiritualidade não me afasta da política — ela me convoca à responsabilidade.

Quando penso nas periferias que já estão de pé na madrugada, nas mulheres que sustentam lares inteiros e nos jovens divididos entre o estudo e o bico, entendo que a esperança não é um espetáculo. É organização e participação viva. Política que não olha para a escola empobrecida ou para a unidade de saúde sobrecarregada não passa de retórica vazia. Não acredito em salvadores da pátria. Acredito em presença, planejamento e no cuidado real com o próximo.

Governar, no fim das contas, é assumir a responsabilidade concreta pela vida das pessoas. Quando vejo minha filha entrando na escola, entendo que o futuro não pode ser uma promessa solta ao vento. Precisa haver coerência entre o que se diz e o que se faz. O Brasil que acorda cedo não se impressiona com frases inflamadas; ele reconhece quem conhece o peso do transporte público e o aperto do orçamento doméstico.

Continuo acreditando que é possível mudar essa realidade com política que tenha lado, com fé encarnada na vida e com coragem para enfrentar desigualdades históricas. Acordar às quatro da manhã é rotina. Acordar para a responsabilidade é uma escolha. E essa é a escolha que faço questão de renovar a cada novo café, nas manhãs de cada dia.

Leonardo J. D. Campos

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Tempo de escolha

Este ano de 2026 se impõe a nós como um tempo de disputa: disputa de sentidos, de projetos, de valores. Nada está dado. O país que habitamos segue sendo um campo de batalha entre a vida que insiste em florescer e forças que apostam no lucro, no privilégio e na exclusão. Este ano não pede neutralidade; exige posicionamento claro, em alto e bom som.

Não haverá como escapar das lutas que nos atravessam. E elas não serão apenas individuais. Serão, sobretudo, lutas coletivas, travadas no cotidiano das periferias, nos locais de trabalho, nas escolas, nas igrejas, nas ruas e, de modo decisivo, nas urnas. A fé cristã, quando fiel ao Evangelho, não se acomoda diante da injustiça. Jesus não foi neutro diante da fome, da opressão e da hipocrisia do poder. Ele tomou partido da vida.

Este ano nos desafia a fazer diferente também na política. A romper com a indiferença travestida de prudência, com o discurso que iguala opressores e oprimidos, com a ideia de que “tanto faz”. Não faz. As escolhas importam. Importam quem governa, para quem governa e a serviço de quais interesses.

Coragem será necessária para defender o que é público, para afirmar que direitos não são favores, para sustentar que ninguém é descartável. Coragem para dizer que democracia se constrói com participação, não com ódio; com diálogo, não com armas; com políticas que cuidam, não com discursos que ferem.

As eleições não se definem por si só. Não se tratam apenas de um rito formal, mas de um chamado à responsabilidade histórica. Votar é um gesto político, mas também ético. É decidir de que lado da história queremos estar: se ao lado da vida concreta do povo ou dos privilégios de poucos; se ao lado da esperança organizada ou do medo manipulado.

Sonhar com um Brasil mais justo, solidário e fraterno não é utopia vazia. É herança de lutas, de sangue, de suor e de fé. É afirmar que o pão deve ser repartido, que a terra deve cumprir sua função social, que a economia deve servir à vida e que o Estado não pode abandonar os mais pobres. “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mateus 25,40).

Que possamos estar atentos, críticos e comprometidos. Que nossa fé não se feche nos templos, mas caminhe pelas ruas. Que nossa esperança não seja ingênua, mas organizada. E que nossa ação política seja expressão do amor que o Evangelho exige: um amor que incomoda, que confronta e que transforma.

Porque este ano será decisivo. E a história — como sempre — será escrita pelas escolhas que fizermos, individualmente e como povo. Que saibamos escolher a vida, a justiça e o futuro.

Leonardo J. D. Campos

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O chão da cultura no Grande ABC

Quero retomar o importante dia onze de janeiro de 2026, quando, como tantos brasileiros, acompanhei a notícia de que o filme O Agente Secreto, um longa-metragem nacional, havia sido premiado no Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Não Inglesa, além do reconhecimento de Wagner Moura como Melhor Ator em Filme de Drama. Trata-se de um fato que deve ser celebrado não apenas como prestígio internacional, mas como afirmação de valores e de um projeto de país, uma conquista que dialoga diretamente com quem faz cultura todos os dias, longe dos holofotes — é justamente daí que nascem as grandes obras que o mundo passa a enxergar.

Partindo desta ótica, me volto ao ABC paulista, um território onde a cultura nunca foi luxo. Aqui, a arte sempre esteve ligada à sobrevivência. Conheço músicos que atravessam a cidade após um dia inteiro de trabalho; escritores que escrevem de madrugada; poetas que bancam a própria publicação; artistas que improvisam ateliês em casa; atores que ensaiam sem saber se haverá público ou cachê. É nesse cotidiano silencioso que a cultura resiste e se reinventa.

Quando um filme brasileiro ganha o mundo, ele não nasce do nada, mas do esforço, da precariedade e da persistência que começam nos bairros, nas periferias, nos coletivos culturais, nos espaços comunitários e nos editais disputados com enorme dificuldade.

Vale lembrar que o Brasil viveu, não há muito tempo, um período marcado por ataques deliberados à cultura. A arte foi tratada como inimiga, o artista como suspeito e o investimento cultural como desperdício. Esse discurso desceu para as cidades, atingiu o ABC, fechou espaços, interrompeu projetos e empurrou muitos profissionais para a informalidade. O empobrecimento gerado ali foi também simbólico e coletivo, e seus efeitos ainda são sentidos.

Por isso, é fundamental reafirmar: cultura é trabalho, é direito e é política pública. Não existe cinema premiado sem Estado presente, assim como não existe cultura viva sem territórios fortalecidos. O ABC tem talentos suficientes para ocupar palcos, telas e feiras em qualquer lugar do mundo. O que falta não é criatividade, é prioridade política.

Celebrar um prêmio internacional só faz sentido quando ele se transforma em acesso, orçamento, continuidade e dignidade para quem faz arte no cotidiano. É justo comemorar quando o mundo aplaude o cinema brasileiro, mas a vitória só se completa quando esse reconhecimento chega aqui dentro como política pública. Sem isso, o aplauso é distante; com isso, vira sustento, pertencimento e futuro.

Leonardo J. D. Campos

Artigo publicado no Diário do Grande ABC, em 22 de janeiro de 2026, no caderno Opinião, página 2.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Dia do Mártir São Sebastião

O dia de São Sebastião, celebrado em 20 de janeiro, não é apenas uma data do calendário religioso. Para muitas comunidades, especialmente na Zona da Mata Mineira onde a devoção ao santo se enraíza e se expressa de forma intensa por meio da Folia de São Sebastião, assim como em lugares como Rio Grande da Serra, onde a devoção se materializa na própria vida paroquial dedicada ao santo, trata-se de um tempo próprio, carregado de memória, organização coletiva e sentido comunitário. É o dia em que a fé sai de casa, ganha estrada e se transforma em encontro — um movimento que se repete em tantas outras comunidades espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, onde São Sebastião segue sendo referência de proteção, resistência e cuidado com a vida.

Em Minas Gerais, a Folia de São Sebastião é uma tradição viva, reconhecida e profundamente familiar. Não nasce de eventos oficiais nem de agendas institucionais, mas do compromisso assumido entre gerações. Mestres de folia, guardiões das bandeiras, violeiros, cantadores, bandeireiros e cozinheiras formam uma rede que se organiza, não por obrigação, mas por pertencimento. Cada um sabe seu lugar, sua função e sua responsabilidade. Nada é improvisado, porque tudo é partilhado.

A bandeira de São Sebastião é o centro desse movimento. Ela não é adorno nem símbolo distante: é presença. Ao entrar nas casas, carrega pedido, agradecimento, promessa e proteção. Quem recebe a folia não é espectador, é parte do rito. Abre a porta, oferece café, comida, pouso, escuta os cantos, reza junto. A fé acontece ali, no cotidiano, sem separação entre o sagrado e a vida concreta.

Os cantos da folia não falam de um santo distante ou idealizado. Falam de cuidado, de trabalho, de saúde, de proteção contra a fome, a peste, a doença e a violência. Falam da terra, da família e do esforço diário. É uma espiritualidade que reconhece a dureza da vida, mas insiste na dignidade. Não promete fuga do mundo, mas força para permanecer nele.

Essa devoção não se sustenta no abstrato. Ela se mantém porque foi cuidada por pessoas concretas, muitas delas já falecidas, que assumiram, em seu tempo, a responsabilidade de preservar a folia e transmiti-la como herança viva. Cada geração recebeu essa tradição, cuidou dela à sua maneira, a entregou à seguinte e, por conta disso, permanece. 

Registro aqui alguns nomes que marcaram essa caminhada e contribuíram diretamente para a continuidade dessa expressão de fé: minha avó Elvira Dutra Medina; meu pai, Pedro; minha mãe, Maria; meus tios paternos Minerval, Adolfo e José; meus tios maternos João, Astolfo, Maurício e Sebastião; meus irmãos Vicente e Camilo; meus primos (tantos que nem consigo enumerar), além de muitos amigos e amigas que, ao longo dos anos, mantiveram e mantêm viva essa prática, garantindo que ela continue caminhando no tempo.

Há, nessa tradição, uma pedagogia silenciosa. A folia ensina que a fé se constrói em comunidade, que ninguém caminha sozinho e que a memória precisa ser cuidada para não se perder. Ensina também que organização não é privilégio do Estado ou das instituições formais. O povo sabe se organizar, distribuir tarefas, resolver conflitos e sustentar o que considera essencial.

São Sebastião, nesse contexto, não aparece apenas como mártir de um passado distante, mas como referência de resistência. Não pela dor, mas pela firmeza. A devoção não exalta o sofrimento, mas a fidelidade à vida, mesmo quando ela é atravessada por injustiças e dificuldades. O santo permanece popular porque sua história dialoga com a experiência de quem precisa resistir todos os dias.

Celebrar São Sebastião, assim, é mais do que cumprir um rito religioso. É reafirmar valores: partilha, cuidado, compromisso coletivo, memória viva. É reconhecer que a fé, quando enraizada no chão do povo, produz laços, organiza comunidades e sustenta esperanças concretas.

Num tempo em que a religião muitas vezes é usada para dividir, excluir ou explorar, a Folia de São Sebastião aponta outro caminho. Um caminho antigo, simples e profundamente atual: aquele em que a fé não se impõe, mas visita; não domina, mas serve; não promete privilégios, mas constrói comunhão.

O dia 20 de janeiro, na Zona da Mata Mineira e em tantos outros lugares, não termina quando a folia se despede. Ele permanece nos vínculos que se reforçam, nas histórias que continuam sendo contadas e na certeza silenciosa de que, enquanto houver gente disposta a caminhar junto, a fé seguirá tendo rosto, voz e endereço.

Leonardo J. D. Campos