Ao ser interpelado por uma mensagem que chegou pelo WhatsApp, deparei-me com uma pergunta que me fez parar por alguns instantes. Para melhor contextualizar, imagine que a pergunta fazia referência à minha presença e à minha postura em uma atividade do Lula:
“Como alguém como eu, que luta por um Brasil melhor, que se preocupa com as pessoas e que sempre esteve envolvido em causas sociais, poderia estar participando de uma atividade do Lula e, ainda por cima, usando um boné com o nome dele?”
A pergunta veio de alguém próximo, de um irmão de caminhada, de alguém com quem existe afeto suficiente para que possamos discordar sem destruir o que construímos ao longo da vida. Talvez por isso eu tenha recebido aquele áudio não como uma agressão, mas como um convite involuntário à reflexão.
Afinal, o que significava aquele boné?
Para quem olha apenas para a fotografia, talvez seja só um acessório com um nome estampado. Para mim, carregava um contexto. Eu estava no Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo. Um lugar que não é apenas um estádio de futebol, mas, para quem conhece a história política e sindical brasileira, é um chão carregado de memória, mobilização, trabalhadores, greves e lutas das quais Lula também faz parte.
Por isso eu estava ali. E por isso usava aquele boné.
Mas há algo ainda mais importante: eu não comecei a pensar em política no dia em que um boné com o nome de Lula apareceu.
Minha trajetória é muito anterior a essa fotografia. Sou petista desde 1993 — filiado por convicção, não por conveniência. Nesses mais de trinta anos, a militância deixou de ser uma atividade bissexta para se tornar parte da minha própria identidade. A luta não é uma roupa que se veste em época de eleição e depois se guarda no armário. É a lente pela qual aprendi a olhar para o mundo, para as desigualdades e para o que acredito que a sociedade pode vir a ser.
Isso não significa que eu tenha acertado sempre. Não significa que eu concorde com tudo, nem que tenha mantido as mesmas certezas de trinta anos atrás.
Pelo contrário. A maior marca de uma trajetória política longa é perceber que a história é feita de escolhas, erros, contradições, avanços e recuos. A gente aprende, reavalia, discorda. Às vezes muda de posição; às vezes permanece onde estava, mas por razões renovadas. Posso estar errado. Posso estar certo. Quem dirá, em grande medida, é o tempo.
Foi o que tentei dizer ao responder àquela mensagem: vivemos em uma democracia. E uma das coisas mais bonitas — e desafiadoras — da democracia é descobrir que alguém que amamos pode pensar de maneira completamente diferente de nós.
Meu interlocutor pensa de um jeito; eu, de outro. Ele tem suas convicções; eu tenho as minhas. E não há problema algum nisso. O problema começa quando transformamos nossa convicção em uma autorização para desqualificar a do outro.
Posso discordar radicalmente de alguém e continuar respeitando sua história. Posso considerar que a pessoa está equivocada em determinado assunto sem concluir que ela é equivocada por inteiro. Essa distinção, tão simples em tese, parece estar se apagando da vida pública. Hoje, basta um boné, uma camiseta, um adesivo ou uma bandeira para que se tente decifrar uma existência inteira. Como se um símbolo desse conta para explicar uma vida.
Não dá.
O boné não sabe que sou petista desde 1993. Não sabe das pessoas que conheci nessa caminhada, das lutas de que participei, nem das vezes em que discordei do próprio partido. Não sabe das minhas decepções nem das esperanças que ainda cultivo. Não sabe, sobretudo, que a minha militância não nasceu da idolatria a uma pessoa, mas de uma visão de mundo, do desejo de viver uma sociedade justa, solidária e fraterna.
Eu posso ser petista sem achar que todo petista é infalível. Posso votar em Lula sem considerá-lo sagrado. Posso defender um projeto político e, exatamente por isso, ser rigoroso na cobrança aos que dele fazem parte.
Há um erro perigoso em atribuir à instituição, ou a todo um campo político, o erro individual de quem o integra. Corrupção não tem ideologia nem partido. Quem comete um desvio é uma pessoa — e pessoas falhas existem em todas as siglas, posições e instituições. Há gente honesta e desonesta na esquerda e na direita; há quem entre na política para servir e quem entre apenas para se servir.
A política é feita por seres humanos, capazes das melhores e das piores escolhas. Quem comete um crime precisa responder por ele; quem trai a confiança pública precisa prestar contas. Mas não é justo transformar a culpa de alguns em sentença permanente para todos — assim como não é justo usar os acertos de um líder como absolvição automática para tudo o que ele fizer.
Política não é torcida organizada. Embora eu tenha usado essa metáfora naquela conversa, o futebol tem limites como analogia. O torcedor apoia seu time cegamente, ganhe ou perca. Mas o resultado do futebol termina no apito final de domingo; na política, as decisões afetam a vida real, a mesa e o futuro das pessoas. Por isso, mais do que torcer, precisamos pensar. E pensar exige manter os olhos abertos.
É por isso que digo, sem qualquer contradição: sou petista, tenho lados claros e, ainda assim, me reservo o direito de discordar do meu próprio partido. A fidelidade aos meus valores não exige servidão cega a ninguém. Nem a Lula, nem ao PT, nem a qualquer figura pública. Minha consciência não tem número de filiação.
Há ainda uma dimensão mais profunda nisso tudo: a minha fé. O Deus em quem acredito não assiste às dores humanas à distância. É um Deus que está ao lado dos pobres, dos excluídos e dos perseguidos; um Deus que conheceu a prisão e a violência por causa do que representava.
Não se trata de comparar ninguém a Jesus — seria um absurdo. Trata-se de reconhecer que minha fé moldou minha visão da política como um espaço de responsabilidade, de cuidado com o outro e de busca por justiça social. Para mim, a militância nunca foi sobre siglas; sempre foi sobre gente. Sobre quem passa fome, quem trabalha sem dignidade, quem não tem voz, vez, lugar...
É por isso que continuo militando. É por isso que continuo acreditando. E é por isso que eu estava naquele estádio com aquelas pessoas todas e com aquele boné: não porque deixei de pensar, mas justamente porque penso e escolho.
Você tem o direito de discordar de mim. Eu tenho o direito de discordar de você. Podemos debater com firmeza, apontar os erros um do outro e terminar a conversa sem que nenhum mude de ideia. E está tudo bem. Afeto não deveria depender de voto; relações não deveriam depender de partido; respeito não exige uniformidade.
Lembro-me que no fim do áudio, eu disse algo simples: "Deus abençoe e vamos tocar a vida."
É isso. Tocar a vida. Continuar trabalhando, lutando, conversando, discordando e acreditando. Na próxima atividade política, se eu entender que devo estar lá, estarei. Talvez de boné, talvez sem ele. Mas certamente com a mesma convicção que carrego desde sempre: a de que pensar, escolher e lutar são as formas mais profundas de exercer a liberdade e a democracia.




