domingo, 16 de agosto de 2026

O direito de continuar pensando

Ao ser interpelado por uma mensagem que chegou pelo WhatsApp, deparei-me com uma pergunta que me fez parar por alguns instantes. Para melhor contextualizar, imagine que a pergunta fazia referência à minha presença e à minha postura em uma atividade do Lula:

“Como alguém como eu, que luta por um Brasil melhor, que se preocupa com as pessoas e que sempre esteve envolvido em causas sociais, poderia estar participando de uma atividade do Lula e, ainda por cima, usando um boné com o nome dele?”

A pergunta veio de alguém próximo, de um irmão de caminhada, de alguém com quem existe afeto suficiente para que possamos discordar sem destruir o que construímos ao longo da vida. Talvez por isso eu tenha recebido aquele áudio não como uma agressão, mas como um convite involuntário à reflexão.

Afinal, o que significava aquele boné?

Para quem olha apenas para a fotografia, talvez seja só um acessório com um nome estampado. Para mim, carregava um contexto. Eu estava no Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo. Um lugar que não é apenas um estádio de futebol, mas, para quem conhece a história política e sindical brasileira, é um chão carregado de memória, mobilização, trabalhadores, greves e lutas das quais Lula também faz parte.

Por isso eu estava ali. E por isso usava aquele boné.

Mas há algo ainda mais importante: eu não comecei a pensar em política no dia em que um boné com o nome de Lula apareceu.

Minha trajetória é muito anterior a essa fotografia. Sou petista desde 1993 — filiado por convicção, não por conveniência. Nesses mais de trinta anos, a militância deixou de ser uma atividade bissexta para se tornar parte da minha própria identidade. A luta não é uma roupa que se veste em época de eleição e depois se guarda no armário. É a lente pela qual aprendi a olhar para o mundo, para as desigualdades e para o que acredito que a sociedade pode vir a ser.

Isso não significa que eu tenha acertado sempre. Não significa que eu concorde com tudo, nem que tenha mantido as mesmas certezas de trinta anos atrás.

Pelo contrário. A maior marca de uma trajetória política longa é perceber que a história é feita de escolhas, erros, contradições, avanços e recuos. A gente aprende, reavalia, discorda. Às vezes muda de posição; às vezes permanece onde estava, mas por razões renovadas. Posso estar errado. Posso estar certo. Quem dirá, em grande medida, é o tempo.

Foi o que tentei dizer ao responder àquela mensagem: vivemos em uma democracia. E uma das coisas mais bonitas — e desafiadoras — da democracia é descobrir que alguém que amamos pode pensar de maneira completamente diferente de nós.

Meu interlocutor pensa de um jeito; eu, de outro. Ele tem suas convicções; eu tenho as minhas. E não há problema algum nisso. O problema começa quando transformamos nossa convicção em uma autorização para desqualificar a do outro.

Posso discordar radicalmente de alguém e continuar respeitando sua história. Posso considerar que a pessoa está equivocada em determinado assunto sem concluir que ela é equivocada por inteiro. Essa distinção, tão simples em tese, parece estar se apagando da vida pública. Hoje, basta um boné, uma camiseta, um adesivo ou uma bandeira para que se tente decifrar uma existência inteira. Como se um símbolo desse conta para explicar uma vida.

Não dá.

O boné não sabe que sou petista desde 1993. Não sabe das pessoas que conheci nessa caminhada, das lutas de que participei, nem das vezes em que discordei do próprio partido. Não sabe das minhas decepções nem das esperanças que ainda cultivo. Não sabe, sobretudo, que a minha militância não nasceu da idolatria a uma pessoa, mas de uma visão de mundo, do desejo de viver uma sociedade justa, solidária e fraterna.

Eu posso ser petista sem achar que todo petista é infalível. Posso votar em Lula sem considerá-lo sagrado. Posso defender um projeto político e, exatamente por isso, ser rigoroso na cobrança aos que dele fazem parte.

Há um erro perigoso em atribuir à instituição, ou a todo um campo político, o erro individual de quem o integra. Corrupção não tem ideologia nem partido. Quem comete um desvio é uma pessoa — e pessoas falhas existem em todas as siglas, posições e instituições. Há gente honesta e desonesta na esquerda e na direita; há quem entre na política para servir e quem entre apenas para se servir.

A política é feita por seres humanos, capazes das melhores e das piores escolhas. Quem comete um crime precisa responder por ele; quem trai a confiança pública precisa prestar contas. Mas não é justo transformar a culpa de alguns em sentença permanente para todos — assim como não é justo usar os acertos de um líder como absolvição automática para tudo o que ele fizer.

Política não é torcida organizada. Embora eu tenha usado essa metáfora naquela conversa, o futebol tem limites como analogia. O torcedor apoia seu time cegamente, ganhe ou perca. Mas o resultado do futebol termina no apito final de domingo; na política, as decisões afetam a vida real, a mesa e o futuro das pessoas. Por isso, mais do que torcer, precisamos pensar. E pensar exige manter os olhos abertos.

É por isso que digo, sem qualquer contradição: sou petista, tenho lados claros e, ainda assim, me reservo o direito de discordar do meu próprio partido. A fidelidade aos meus valores não exige servidão cega a ninguém. Nem a Lula, nem ao PT, nem a qualquer figura pública. Minha consciência não tem número de filiação.

Há ainda uma dimensão mais profunda nisso tudo: a minha fé. O Deus em quem acredito não assiste às dores humanas à distância. É um Deus que está ao lado dos pobres, dos excluídos e dos perseguidos; um Deus que conheceu a prisão e a violência por causa do que representava.

Não se trata de comparar ninguém a Jesus — seria um absurdo. Trata-se de reconhecer que minha fé moldou minha visão da política como um espaço de responsabilidade, de cuidado com o outro e de busca por justiça social. Para mim, a militância nunca foi sobre siglas; sempre foi sobre gente. Sobre quem passa fome, quem trabalha sem dignidade, quem não tem voz, vez, lugar...

É por isso que continuo militando. É por isso que continuo acreditando. E é por isso que eu estava naquele estádio com aquelas pessoas todas e com aquele boné: não porque deixei de pensar, mas justamente porque penso e escolho.

Você tem o direito de discordar de mim. Eu tenho o direito de discordar de você. Podemos debater com firmeza, apontar os erros um do outro e terminar a conversa sem que nenhum mude de ideia. E está tudo bem. Afeto não deveria depender de voto; relações não deveriam depender de partido; respeito não exige uniformidade.

Lembro-me que no fim do áudio, eu disse algo simples: "Deus abençoe e vamos tocar a vida."

É isso. Tocar a vida. Continuar trabalhando, lutando, conversando, discordando e acreditando. Na próxima atividade política, se eu entender que devo estar lá, estarei. Talvez de boné, talvez sem ele. Mas certamente com a mesma convicção que carrego desde sempre: a de que pensar, escolher e lutar são as formas mais profundas de exercer a liberdade e a democracia.

Leonardo J. D. Campos

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Os cães que ignoravam a pressa


Era pouco depois das oito da manhã. O relógio marcava justamente aquele horário em que a cidade parece disputar uma corrida contra si mesma. Eu seguia por uma das avenidas mais movimentadas de Santo André, acompanhando o fluxo intenso de carros que avançavam em direção à região central. Motores acelerados, semáforos, buzinas, motocicletas costurando entre os veículos, ônibus lotados. Cada pessoa parecia carregar uma urgência particular.

Foi então que meus olhos se desviaram da pista.

Sobre a calçada, dois cães de pelagem clara estavam deitados lado a lado. Não brincavam, não latiam, não disputavam espaço. Apenas observavam. Olhavam o movimento dos carros com uma serenidade desconcertante, como quem assiste a um espetáculo do qual não faz questão de participar.

Pareciam completamente alheios à pressa que dominava a cidade.

A cena me fez diminuir a velocidade dos pensamentos.

Enquanto milhares de pessoas corriam para cumprir horários, bater ponto, chegar a reuniões, resolver problemas ou simplesmente sobreviver a mais um dia, aqueles dois animais permaneciam ali, donos de um tempo que nós, humanos, parecemos ter perdido há muito.

Fiquei imaginando o que viam.

Talvez enxergassem apenas uma sucessão de máquinas passando. Talvez não compreendessem por que tanta gente corre. Ou talvez compreendessem mais do que nós. Afinal, quem decidiu que viver precisa ser uma corrida permanente?

O contraste era quase poético.

De um lado, uma avenida pulsando ansiedade, prazos e compromissos. Do outro, dois cães oferecendo, sem saber, uma silenciosa aula sobre contemplação. Não havia neles qualquer sinal de preocupação com o próximo minuto. Existia apenas o instante presente.

Nós, ao contrário, estamos quase sempre ausentes do agora. O corpo segue dirigindo, andando ou trabalhando, enquanto a cabeça já está na próxima reunião, na conta que vence amanhã, na mensagem que ainda precisa ser respondida ou no problema que talvez nem aconteça.

Corremos tanto que deixamos de perceber cenas como aquela.

Talvez por isso ela tenha me tocado tanto.

Não porque dois cães estivessem deitados numa calçada, mas porque, por alguns segundos, eles pareciam ser os únicos habitantes daquela avenida que realmente estavam vivendo aquele momento.

Às vezes, a cidade ensina. Não pelas placas, nem pelos prédios, muito menos pelo trânsito. Ensina pelos encontros inesperados. E, naquela manhã, foram dois cães anônimos que me lembraram de algo que insistimos em esquecer: a vida não acontece apenas no destino. Ela acontece, sobretudo, no caminho.

Leonardo J. D. Campos

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Anjos na estrada

Existem acontecimentos na vida que desafiam as explicações mais simples. Não porque sejam milagres espetaculares ou fenômenos extraordinários, mas porque parecem costurados por uma sequência de circunstâncias tão improváveis que acabamos enxergando nelas algo maior do que o acaso. São momentos que nos levam a acreditar que Deus continua agindo por meio das pessoas, colocando em nosso caminho aqueles que, por um gesto de bondade, transformam uma situação difícil em uma experiência de esperança.

Foi exatamente isso que vivi recentemente, durante uma viagem de retorno de São João Nepomuceno, em Minas Gerais, para Santo André, São Paulo, cidade onde resido.

No carro estavam minha esposa, Luiza, minha sobrinha Camila e minha sobrinha-neta Heloísa. Havíamos passado alguns dias em Minas com a família e iniciávamos o trajeto de volta. Antes de pegar a estrada, fiz uma rápida verificação no veículo. Entre os procedimentos de rotina, completei o reservatório do fluido do radiador. Era algo simples, quase automático. O que não percebi foi que a tampa do reservatório, por descuido, não havia sido colocada de volta no lugar.

Seguimos viagem sem notar qualquer anormalidade. Passamos pela cidade de Bicas e continuamos em direção a São Paulo. Depois de aproximadamente trinta ou quarenta quilômetros, porém, surgiram os primeiros sinais de problema. O motor começou a superaquecer e logo ficou evidente que o dano era sério. Mais tarde, viríamos a constatar que a junta do cabeçote havia sido comprometida.

A preocupação foi inevitável. Além do prejuízo mecânico, havia a incerteza de estar longe de casa, acompanhado da família, em pleno sábado à tarde — um horário em que encontrar assistência especializada costuma ser difícil, especialmente em cidades menores. Ainda assim, consegui conduzir o carro de volta até Bicas, acreditando que ali talvez encontrássemos alguma solução.

Foi então que surgiu a primeira tentativa de ajuda. Um funileiro aproximou-se e se dispôs a verificar o veículo. Durante um bom tempo, ele examinou o motor, fez testes, levantou hipóteses e tentou identificar a origem do problema. Reconheço sua boa vontade, mas suas intervenções não apontavam para uma solução concreta. À medida que o tempo passava, crescia em mim a sensação de que ele não compreendia exatamente o que estava acontecendo. A aflição aumentava; o carro continuava parado e nenhuma alternativa segura aparecia diante de nós.

Enquanto isso, entre conversas e preocupações, surgiu uma necessidade simples: Camila precisava usar o banheiro. Meu sobrinho Vinícius, que havia saído de São João Nepomuceno para nos prestar auxílio, acompanhou-a até uma agência de automóveis próxima e pediu autorização para usar as instalações.

O pedido foi prontamente concedido.

Durante a breve conversa que se seguiu, Vinícius comentou com o proprietário da agência sobre a situação que enfrentávamos. Relatou o problema mecânico, as dificuldades do momento e a incerteza sobre como proceder.

Aquele diálogo aparentemente casual mudaria completamente o rumo da nossa história.

O dono da agência, Nelsinho, ouviu atentamente o relato e imediatamente se colocou à disposição para ajudar. Seu estabelecimento chamado "Renascer Veículos" — um nome que só mais tarde passaria a ter um significado especial para mim. Sem me conhecer, sem qualquer obrigação e sem esperar nada em troca, ele ofereceu um espaço seguro para guardar o carro até que pudesse ser avaliado adequadamente. Além disso, indicou um mecânico de sua confiança e se comprometeu a acompanhar o caso para que o reparo fosse realizado da melhor forma.

Naquele momento, o problema técnico ainda existia; o carro continuava quebrado e a viagem, interrompida. No entanto, algo havia mudado profundamente: a sensação de abandono deu lugar à tranquilidade de saber que alguém estava disposto a nos estender a mão de maneira sincera e desinteressada.

O veículo permaneceu na agência durante o fim de semana. Na segunda-feira, o mecânico realizou os reparos necessários e, na terça-feira, pude retornar a Bicas para buscá-lo. Tudo havia sido resolvido. O carro estava pronto para seguir viagem e completar o trajeto de volta para Santo André.

Quando recordo essa experiência, o que mais me chama a atenção não é o defeito mecânico nem o transtorno do imprevisto. O que permanece vivo em minha memória é a forma como a solução surgiu. Não foi algo planejado, nem aconteceu por meio de contatos prévios ou favores antigos. Ela nasceu de uma sequência de acontecimentos comuns: um problema na estrada, o retorno a uma cidade que já havia ficado para trás, a tentativa frustrada de conserto, a necessidade biológica de uma sobrinha e uma conversa informal entre dois desconhecidos.

Talvez alguém chame isso de coincidência. Eu prefiro enxergar de outra maneira. Acredito que Deus continua cuidando de nós através de pessoas que escolhem praticar o bem — pessoas que não aparecem nas manchetes dos jornais, mas que fazem toda a diferença na vida de quem cruza seu caminho.

Por isso, quando penso naquele sábado em Bicas, não me recordo apenas de um motor quebrado. Recordo-me da generosidade de Vinícius, que deixou São João Nepomuceno para nos socorrer, e da solidariedade de Nelsinho, que abriu as portas da Renascer Veículos para acolher uma família completamente desconhecida.

São experiências assim que me fazem acreditar que os anjos existem. Nem sempre eles possuem asas; às vezes, apenas carregam consigo a prontidão de ajudar alguém no momento em que essa ajuda se torna mais necessária.

Leonardo J. D. Campos

quinta-feira, 30 de abril de 2026

O lado da história


Tem algo que o tempo me ensinou — não de uma vez, mas no cansaço das horas, na vida acontecendo sem aviso. Quando a gente abre o livro da história, quase nunca encontra uma versão única. O que pulsa ali são disputas; narrativas que se enfrentam, cada qual defendendo o seu quadrado ou os seus privilégios. E eu fui entendendo, aos poucos, que assumir um posicionamento não é luxo — é quase uma obrigação se quisermos, de fato, pertencer a algum lugar nesta vastidão de mundo em que vivemos.

Essa consciência não veio pronta para mim. Foi sendo moldada no dia a dia, nas conversas simples — muitas vezes na calçada, no portão, no fim de tarde —, nas dores que não saem nos noticiários e nas dúvidas que insistem em visitar a madrugada. É uma construção feita nos desencontros que nos obrigam a enxergar o que a pressa tenta esconder: a verdade das dificuldades diárias, o toque áspero dos pés descalços nos atalhos da vida e o silêncio doído de um prato vazio que, às vezes, fala mais alto que qualquer discurso.

É nesse ponto que a pergunta se torna inevitável — e, confesso, já me pegou mais de uma vez: de que lado estamos?

Pergunto isso porque ainda me causa espanto ouvir tanta gente dizer que é cristã enquanto defende a pena de morte, a ditadura ou a tortura. Que cristianismo é esse? Parece contraditório quando olhamos para o que, na prática, significa seguir Jesus Cristo. Será que já nos demos conta de que segui-lo é, na essência, seguir um prisioneiro? Um homem que foi perseguido, torturado e condenado à morte pelo sistema político da sua época?

Seguir a Jesus Cristo é, portanto, assumir um lado na sociedade. E eu fui compreendendo isso na caminhada. É escolher defender a vida, a justiça e a promessa de “que todos tenham vida e a tenham em abundância”. É colocar-se, sem hesitação, "na fileira dos oprimidos" e não se calar diante das injustiças que trituram o próximo. É entender que o “amar uns aos outros” não aceita notas de rodapé: é um amor que não pergunta antes de acolher, que não seleciona quem merece.

Assumir essa coerência não é tarefa fácil — eu sei disso na pele. E custa caro. No Brasil de hoje, marcado por uma polarização que atravessa até as relações mais simples, essa postura incomoda. As pessoas já não se escutam como antes. Aqueles encontros na praça, no fim da tarde, para “jogar conversa fora” e deixar o tempo passar, parecem coisa de outro tempo — quase uma lembrança distante de quando o diálogo ainda tinha morada.

Essa disseminação de rancor me inquieta profundamente, mas não me permite a indiferença. É justamente nesse cenário que encontro meu prumo ao escolher ser discípulo de Jesus Cristo. Não o Cristo distante, intocável, mas Aquele que nasceu na pobreza de uma manjedoura porque não havia lugar para Ele nas hospedarias do sistema. Sigo aquele que gastou a sola do pé na poeira, que olhou nos olhos dos invisíveis e que ousou sentar à mesa com quem o mundo já tinha descartado — e, sendo sincero, é esse jeito que me desafia todos os dias.

Na crueza dos fatos, ser discípulo é entender a trajetória de um prisioneiro político que incomodou o status quo ao denunciar a hipocrisia das leis que pesam sobre os pequenos enquanto protegem os grandes. Ele mexeu nas estruturas e pagou o preço mais alto, sendo fiel até o último suspiro à urgência da vida que pregava. E é essa mesma urgência que, muitas vezes, me tira do conforto e me coloca de pé na lida da comunidade — seja nas missas aos domingos, nas reuniões da associação, na escrita que resgata a memória local ou na luta contra a burocracia que insiste em apagar vozes.

Escolher esse caminho não é romantizar a dor — é assumir o compromisso de não fugir dela quando ela revela injustiça. Ainda assim, eu escolho acreditar. Escolho não deixar o coração endurecer enquanto as praças permanecem vazias de diálogo. Escolho tentar, todos os dias, ser minimamente coerente com o que escrevo e com o que digo professar — mesmo sabendo que nem sempre consigo.

Porque, no fim das contas, a gente não escolhe apenas uma versão da história para observar de longe. A gente escolhe o tipo de história que quer ajudar a construir com as próprias mãos.

Leonardo J. D. Campos

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A luz que não se esconde

Muitas coisas marcaram minha infância. Algumas são duras de revisitar. Outras, no entanto, permanecem como um abrigo dentro da memória — daquelas que aquecem o coração e continuam ensinando, mesmo depois de tantos anos.

Uma dessas lembranças me leva às noites quentes do verão mineiro, lá em Piacatuba. Eu saía com meu pai pelo pasto do sítio onde morávamos, carregando um vidro nas mãos. Nossa missão era simples e mágica: procurar vaga-lumes.

Corria atrás daquelas pequenas luzes vivas com um encantamento difícil de explicar. Quando conseguia capturar alguns — dez, quinze, talvez — colocava-os dentro do vidro com todo cuidado. Depois, levava aquele pequeno universo luminoso para o quarto e o acomodava acima do berço onde dormia. Era a minha “luz elétrica”.

E que luz.

Numa casa simples, de pau a pique, onde não havia energia elétrica e a lamparina a querosene era o recurso possível, aqueles vaga-lumes iluminavam mais do que o ambiente. Iluminavam a imaginação, o sentimento, os sonhos, a própria infância.

Hoje, olhando para esse tempo, me pergunto se, de alguma forma, não perdemos a capacidade de enxergar essas pequenas luzes.

Vivemos cercados de tecnologia, de telas brilhantes, de uma iluminação que nunca se apaga — mas, curiosamente, parece que tudo anda mais escuro. Temos luz em excesso, mas falta brilho. Falta encantamento.

E talvez falte também sentido.

Porque, no fundo, a vida sempre nos chamou a ser mais do que consumidores de luz. Sempre nos chamou a sermos luz.

Pensando nisso, me fez lembrar das palavras de Jesus, que atravessam o tempo com a mesma força daquelas noites de outrora: “Vocês são a luz do mundo… Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha… Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens…”(Mt. 5, 13-16)

Naquele tempo, eu saía com meu pai em busca de luz para iluminar o quarto. Hoje, percebo que o caminho é outro: não se trata mais de procurar fora, mas de deixar acender por dentro.

Os vaga-lumes que eu guardava no vidro iluminavam a noite por algumas horas. A luz que somos chamados a carregar pode iluminar caminhos inteiros — não pela intensidade, mas pelo sentido.

Talvez o desafio dos nossos dias não seja buscar mais luz — mas reaprender a não escondê-la.

Porque ainda há muita escuridão no mundo e, ainda há, dentro de cada um de nós, uma pequena luz esperando coragem para brilhar, para fazer a diferença e aquilo que for necessário para viver uma vida feliz e de paz.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

O desejo em tempos de tudo pronto

Há uma crise silenciosa atravessando o nosso tempo — e ela não aparece nos indicadores econômicos, nem nos discursos oficiais. Ela se revela em algo mais íntimo: no esvaziamento do desejo.

As pessoas seguem vivendo. Acordam cedo, trabalham, pagam contas, percorrem a cidade, opinam nas redes. Tudo parece em ordem. Mas, no fundo, algo essencial parece ter enfraquecido: a capacidade de desejar de verdade. Não apenas querer o próximo consumo ou a próxima distração, mas desejar o novo, o diferente, aquilo que ainda não existe — e que, por isso mesmo, precisa ser construído.

E isso não acontece por acaso. Vivemos sob uma lógica que organiza a vida para que tudo venha pronto. A comida chega por aplicativo, o entretenimento é infinito e as respostas aparecem antes mesmo das perguntas. O mundo cabe na palma da mão, mas, curiosamente, a vida parece cada vez menor. Há uma espécie de cansaço que não vem só do excesso de tarefas, mas do excesso de estímulos vazios. Tudo é rápido, acessível, imediato e, ao mesmo tempo, raso.

Nesse cenário, o desejo — que exige tempo, espera e construção — vai sendo substituído por impulsos. Pequenas satisfações que aliviam por instantes, mas não preenchem. E, aos poucos, quase sem perceber, a gente desaprende a desejar. Talvez isso fique mais claro quando olhamos para algo simples da vida. Um namoro “das antigas” não começava pronto; havia a paquera, o cuidado no olhar, a conversa que ia ganhando intimidade aos poucos. Depois vinha o pedido, o compromisso assumido, o tempo de conhecer de verdade. O noivado, o casamento... cada etapa com seu sentido, seu tempo, sua construção. Não era só uma sequência de fatos, era um caminho.

E é nesse caminho que o desejo se alimenta. É ali que nascem as expectativas, os sonhos e o sentido de futuro. Porque desejar não é ter — é construir. Isso vale para o amor, mas também vale para a vida.

O que eu quero construir? O que eu quero ser? Qual é o sentido da minha vida? Para onde eu estou indo?

Essas perguntas, que antes atravessaram a juventude e acompanhavam a vida adulta, hoje muitas vezes nem chegam a ser feitas. E, quando aparecem, encontram dificuldade de resposta, porque o mundo foi sendo reduzido ao agora, ao imediato, ao instante seguinte. O depois — quando existe — pouco importa.

Mas essa não é apenas uma questão íntima, é profundamente política. Uma sociedade que não deseja, não se move. Um povo que perde a capacidade de imaginar um futuro diferente torna-se mais tolerante com o que já está dado — mesmo quando esse “dado” é injusto. Afinal, por que lutar por melhores condições de vida, por mais direitos e por dignidade, se a esperança de mudança já não pulsa com a mesma força?

O que se instala, então, não é a ausência de sofrimento, mas o acúmulo dele — um sofrimento que não encontra canal, escuta nem horizonte coletivo. Esse tipo de dor não se transforma em luta; ele se converte em cansaço. E o cansaço, quando se prolonga, acaba se tornando conformismo. É assim que se constrói uma apatia organizada.

Nesse ambiente, até a política se esvazia. Torna-se mais superficial, mais imediata, mais barulhenta — mas cada vez menos transformadora. Discute-se muito, mas muda-se pouco. Talvez porque esteja faltando algo simples e, ao mesmo tempo, essencial: o encontro. Falta tempo para sentar e conversar sem pressa. Falta escuta de verdade. Falta olhar no olho. Falta o espaço onde a palavra não precisa disputar atenção com notificações.

Falta a roda.

A roda de conversa, de música, de poesia, de partilha. Em volta de um violão, de um pandeiro, de um cavaco — ou mesmo de uma mesa simples. Lugares onde a vida não é performada, mas vivida; onde as histórias circulam, onde o silêncio também fala, onde as pessoas se reconhecem e se constroem mutuamente. Pode parecer pouco diante de tantos problemas grandes, mas não é. É nesses espaços que o desejo reaprende a existir, porque o desejo não nasce do excesso nem do imediato, mas da falta, do tempo e da construção compartilhada.

Ele não floresce no isolamento, mas no encontro, naquilo que se constrói entre pessoas que se reconhecem e se escutam. Por isso, retomar o desejo é também um ato político, na medida em que significa recuperar a capacidade de se abrir ao outro, de investir no encontro e de acreditar que a realidade pode ser transformada mesmo quando ela parece dura demais.

Resistir à lógica do “tudo pronto” é, no fundo, defender a própria vida em sua dimensão mais humana, aquela que não se contenta com respostas rápidas, mas insiste em construir sentidos. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja apenas econômico ou institucional, mas existencial: como reacender o desejo em uma sociedade treinada para não desejar?

A resposta não virá pronta — e talvez seja justamente nesse caminho, que precisa ser vivido, partilhado e construído coletivamente, que ainda resida a possibilidade de esperança.

Leonardo Campos

quinta-feira, 26 de março de 2026

Quando alguém diz “misericórdia, senhor”


Hoje, quando saí pelo portão de casa, a vida não me deixou passar ileso. A cidade já estava em movimento, gente indo, gente voltando, cada um carregando suas pressas invisíveis. E foi ali, entre o dentro e o fora, entre a segurança da casa e a dureza da rua, que uma mulher, magra e alta, me parou. Ela trazia na mão uma sacola de plástico, com alguns pães dentro, o corpo aparentemente cansado e os olhos marejados de quem já pediu muito à vida e recebeu pouco.

O que ela me pediu? Não foi dinheiro. Pediu trabalho. E isso muda tudo.

Disse-me que fazia qualquer coisa — faxina, lavar banheiro, lavar louça, o que aparecesse. Não era só um pedido, era quase um grito baixo, desses que não fazem barulho, mas atravessam. Perguntei até que série ela estudou, e ela respondeu, sem rodeio, com a verdade simples de quem já não tem o que esconder: até a quarta série. Naquele instante, sem perceber, o mundo se reorganizou diante de mim. De um lado, tudo o que a gente costuma repetir — esforço, mérito, correr atrás, “quem quer consegue”. Do outro, aquela mulher, viva, concreta, desmentindo frases prontas com a própria existência.

Eu disse que, se soubesse de algo, a procuraria. E então ela falou baixo, mas fundo, como quem reza sem precisar de igreja: “misericórdia, senhor”.

Essas duas palavras não eram apenas palavras. Eram uma súplica inteira.

Ali, parado no portão de casa, eu entendi que existem momentos em que o debate sobre a sociedade não pode se limitar, como tantas vezes acontece hoje, à divisão entre direita e esquerda. Porque é exatamente ali que ele deixa de ser teoria e vira carne. Eu sei: tem gente que vai olhar para ela e enxergar falta — de estudo, de esforço, de planejamento. E tem gente que vai olhar e enxergar ausência — de oportunidade, de acesso, de cuidado. Não é uma diferença pequena. É uma diferença de mundo.

A fé que nasce do chão da vida, essa que não cabe só nos templos, nunca foi neutra diante disso. O Deus que muitos de nós aprendemos a chamar de Pai não fecha os olhos para quem pede pão — e muito menos para quem pede trabalho. Aquela mulher não estava fazendo discurso, não estava defendendo lado nenhum. Ela só queria uma chance. Mas, sem saber, colocava diante de mim — e de todos nós — uma pergunta incômoda: que tipo de sociedade faz alguém precisar implorar por trabalho logo cedo, na porta da casa de outra pessoa?

Não dá para romantizar isso. Não dá para explicar isso com frases prontas. E, sinceramente, não dá para seguir como se fosse normal. Porque não é. Aquela palavra continua ecoando: misericórdia, senhor. E misericórdia não é sentir pena; é não conseguir mais fingir que não viu. É deixar que aquilo mexa, incomode, desinstale.

Ela seguiu seu caminho. Eu segui o meu. A cidade continuou como se nada tivesse acontecido. Mas alguma coisa ficou ali, parada no portão. Talvez seja isso que realmente importa: não o rótulo que a gente escolhe, não o discurso que a gente repete, mas aquilo que a gente faz depois de um encontro desses. Porque, no fim, a pergunta não é só política. É profundamente humana: quando alguém para na sua frente e diz “misericórdia, senhor”… você consegue continuar como se nada tivesse acontecido?

Leonardo J. D. Campos