quinta-feira, 30 de abril de 2026

O lado da história


Tem algo que o tempo me ensinou — não de uma vez, mas no cansaço das horas, na vida acontecendo sem aviso. Quando a gente abre o livro da história, quase nunca encontra uma versão única. O que pulsa ali são disputas; narrativas que se enfrentam, cada qual defendendo o seu quadrado ou os seus privilégios. E eu fui entendendo, aos poucos, que assumir um posicionamento não é luxo — é quase uma obrigação se quisermos, de fato, pertencer a algum lugar nesta vastidão de mundo em que vivemos.

Essa consciência não veio pronta para mim. Foi sendo moldada no dia a dia, nas conversas simples — muitas vezes na calçada, no portão, no fim de tarde —, nas dores que não saem nos noticiários e nas dúvidas que insistem em visitar a madrugada. É uma construção feita nos desencontros que nos obrigam a enxergar o que a pressa tenta esconder: a verdade das dificuldades diárias, o toque áspero dos pés descalços nos atalhos da vida e o silêncio doído de um prato vazio que, às vezes, fala mais alto que qualquer discurso.

É nesse ponto que a pergunta se torna inevitável — e, confesso, já me pegou mais de uma vez: de que lado estamos?

Pergunto isso porque ainda me causa espanto ouvir tanta gente dizer que é cristã enquanto defende a pena de morte, a ditadura ou a tortura. Que cristianismo é esse? Parece contraditório quando olhamos para o que, na prática, significa seguir Jesus Cristo. Será que já nos demos conta de que segui-lo é, na essência, seguir um prisioneiro? Um homem que foi perseguido, torturado e condenado à morte pelo sistema político da sua época?

Seguir a Jesus Cristo é, portanto, assumir um lado na sociedade. E eu fui compreendendo isso na caminhada. É escolher defender a vida, a justiça e a promessa de “que todos tenham vida e a tenham em abundância”. É colocar-se, sem hesitação, "na fileira dos oprimidos" e não se calar diante das injustiças que trituram o próximo. É entender que o “amar uns aos outros” não aceita notas de rodapé: é um amor que não pergunta antes de acolher, que não seleciona quem merece.

Assumir essa coerência não é tarefa fácil — eu sei disso na pele. E custa caro. No Brasil de hoje, marcado por uma polarização que atravessa até as relações mais simples, essa postura incomoda. As pessoas já não se escutam como antes. Aqueles encontros na praça, no fim da tarde, para “jogar conversa fora” e deixar o tempo passar, parecem coisa de outro tempo — quase uma lembrança distante de quando o diálogo ainda tinha morada.

Essa disseminação de rancor me inquieta profundamente, mas não me permite a indiferença. É justamente nesse cenário que encontro meu prumo ao escolher ser discípulo de Jesus Cristo. Não o Cristo distante, intocável, mas Aquele que nasceu na pobreza de uma manjedoura porque não havia lugar para Ele nas hospedarias do sistema. Sigo aquele que gastou a sola do pé na poeira, que olhou nos olhos dos invisíveis e que ousou sentar à mesa com quem o mundo já tinha descartado — e, sendo sincero, é esse jeito que me desafia todos os dias.

Na crueza dos fatos, ser discípulo é entender a trajetória de um prisioneiro político que incomodou o status quo ao denunciar a hipocrisia das leis que pesam sobre os pequenos enquanto protegem os grandes. Ele mexeu nas estruturas e pagou o preço mais alto, sendo fiel até o último suspiro à urgência da vida que pregava. E é essa mesma urgência que, muitas vezes, me tira do conforto e me coloca de pé na lida da comunidade — seja nas missas aos domingos, nas reuniões da associação, na escrita que resgata a memória local ou na luta contra a burocracia que insiste em apagar vozes.

Escolher esse caminho não é romantizar a dor — é assumir o compromisso de não fugir dela quando ela revela injustiça. Ainda assim, eu escolho acreditar. Escolho não deixar o coração endurecer enquanto as praças permanecem vazias de diálogo. Escolho tentar, todos os dias, ser minimamente coerente com o que escrevo e com o que digo professar — mesmo sabendo que nem sempre consigo.

Porque, no fim das contas, a gente não escolhe apenas uma versão da história para observar de longe. A gente escolhe o tipo de história que quer ajudar a construir com as próprias mãos.

Leonardo J. D. Campos

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A luz que não se esconde

Muitas coisas marcaram minha infância. Algumas são duras de revisitar. Outras, no entanto, permanecem como um abrigo dentro da memória — daquelas que aquecem o coração e continuam ensinando, mesmo depois de tantos anos.

Uma dessas lembranças me leva às noites quentes do verão mineiro, lá em Piacatuba. Eu saía com meu pai pelo pasto do sítio onde morávamos, carregando um vidro nas mãos. Nossa missão era simples e mágica: procurar vaga-lumes.

Corria atrás daquelas pequenas luzes vivas com um encantamento difícil de explicar. Quando conseguia capturar alguns — dez, quinze, talvez — colocava-os dentro do vidro com todo cuidado. Depois, levava aquele pequeno universo luminoso para o quarto e o acomodava acima do berço onde dormia. Era a minha “luz elétrica”.

E que luz.

Numa casa simples, de pau a pique, onde não havia energia elétrica e a lamparina a querosene era o recurso possível, aqueles vaga-lumes iluminavam mais do que o ambiente. Iluminavam a imaginação, o sentimento, os sonhos, a própria infância.

Hoje, olhando para esse tempo, me pergunto se, de alguma forma, não perdemos a capacidade de enxergar essas pequenas luzes.

Vivemos cercados de tecnologia, de telas brilhantes, de uma iluminação que nunca se apaga — mas, curiosamente, parece que tudo anda mais escuro. Temos luz em excesso, mas falta brilho. Falta encantamento.

E talvez falte também sentido.

Porque, no fundo, a vida sempre nos chamou a ser mais do que consumidores de luz. Sempre nos chamou a sermos luz.

Pensando nisso, me fez lembrar das palavras de Jesus, que atravessam o tempo com a mesma força daquelas noites de outrora: “Vocês são a luz do mundo… Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha… Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens…”(Mt. 5, 13-16)

Naquele tempo, eu saía com meu pai em busca de luz para iluminar o quarto. Hoje, percebo que o caminho é outro: não se trata mais de procurar fora, mas de deixar acender por dentro.

Os vaga-lumes que eu guardava no vidro iluminavam a noite por algumas horas. A luz que somos chamados a carregar pode iluminar caminhos inteiros — não pela intensidade, mas pelo sentido.

Talvez o desafio dos nossos dias não seja buscar mais luz — mas reaprender a não escondê-la.

Porque ainda há muita escuridão no mundo e, ainda há, dentro de cada um de nós, uma pequena luz esperando coragem para brilhar, para fazer a diferença e aquilo que for necessário para viver uma vida feliz e de paz.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

O desejo em tempos de tudo pronto

Há uma crise silenciosa atravessando o nosso tempo — e ela não aparece nos indicadores econômicos, nem nos discursos oficiais. Ela se revela em algo mais íntimo: no esvaziamento do desejo.

As pessoas seguem vivendo. Acordam cedo, trabalham, pagam contas, percorrem a cidade, opinam nas redes. Tudo parece em ordem. Mas, no fundo, algo essencial parece ter enfraquecido: a capacidade de desejar de verdade. Não apenas querer o próximo consumo ou a próxima distração, mas desejar o novo, o diferente, aquilo que ainda não existe — e que, por isso mesmo, precisa ser construído.

E isso não acontece por acaso. Vivemos sob uma lógica que organiza a vida para que tudo venha pronto. A comida chega por aplicativo, o entretenimento é infinito e as respostas aparecem antes mesmo das perguntas. O mundo cabe na palma da mão, mas, curiosamente, a vida parece cada vez menor. Há uma espécie de cansaço que não vem só do excesso de tarefas, mas do excesso de estímulos vazios. Tudo é rápido, acessível, imediato e, ao mesmo tempo, raso.

Nesse cenário, o desejo — que exige tempo, espera e construção — vai sendo substituído por impulsos. Pequenas satisfações que aliviam por instantes, mas não preenchem. E, aos poucos, quase sem perceber, a gente desaprende a desejar. Talvez isso fique mais claro quando olhamos para algo simples da vida. Um namoro “das antigas” não começava pronto; havia a paquera, o cuidado no olhar, a conversa que ia ganhando intimidade aos poucos. Depois vinha o pedido, o compromisso assumido, o tempo de conhecer de verdade. O noivado, o casamento... cada etapa com seu sentido, seu tempo, sua construção. Não era só uma sequência de fatos, era um caminho.

E é nesse caminho que o desejo se alimenta. É ali que nascem as expectativas, os sonhos e o sentido de futuro. Porque desejar não é ter — é construir. Isso vale para o amor, mas também vale para a vida.

O que eu quero construir? O que eu quero ser? Qual é o sentido da minha vida? Para onde eu estou indo?

Essas perguntas, que antes atravessaram a juventude e acompanhavam a vida adulta, hoje muitas vezes nem chegam a ser feitas. E, quando aparecem, encontram dificuldade de resposta, porque o mundo foi sendo reduzido ao agora, ao imediato, ao instante seguinte. O depois — quando existe — pouco importa.

Mas essa não é apenas uma questão íntima, é profundamente política. Uma sociedade que não deseja, não se move. Um povo que perde a capacidade de imaginar um futuro diferente torna-se mais tolerante com o que já está dado — mesmo quando esse “dado” é injusto. Afinal, por que lutar por melhores condições de vida, por mais direitos e por dignidade, se a esperança de mudança já não pulsa com a mesma força?

O que se instala, então, não é a ausência de sofrimento, mas o acúmulo dele — um sofrimento que não encontra canal, escuta nem horizonte coletivo. Esse tipo de dor não se transforma em luta; ele se converte em cansaço. E o cansaço, quando se prolonga, acaba se tornando conformismo. É assim que se constrói uma apatia organizada.

Nesse ambiente, até a política se esvazia. Torna-se mais superficial, mais imediata, mais barulhenta — mas cada vez menos transformadora. Discute-se muito, mas muda-se pouco. Talvez porque esteja faltando algo simples e, ao mesmo tempo, essencial: o encontro. Falta tempo para sentar e conversar sem pressa. Falta escuta de verdade. Falta olhar no olho. Falta o espaço onde a palavra não precisa disputar atenção com notificações.

Falta a roda.

A roda de conversa, de música, de poesia, de partilha. Em volta de um violão, de um pandeiro, de um cavaco — ou mesmo de uma mesa simples. Lugares onde a vida não é performada, mas vivida; onde as histórias circulam, onde o silêncio também fala, onde as pessoas se reconhecem e se constroem mutuamente. Pode parecer pouco diante de tantos problemas grandes, mas não é. É nesses espaços que o desejo reaprende a existir, porque o desejo não nasce do excesso nem do imediato, mas da falta, do tempo e da construção compartilhada.

Ele não floresce no isolamento, mas no encontro, naquilo que se constrói entre pessoas que se reconhecem e se escutam. Por isso, retomar o desejo é também um ato político, na medida em que significa recuperar a capacidade de se abrir ao outro, de investir no encontro e de acreditar que a realidade pode ser transformada mesmo quando ela parece dura demais.

Resistir à lógica do “tudo pronto” é, no fundo, defender a própria vida em sua dimensão mais humana, aquela que não se contenta com respostas rápidas, mas insiste em construir sentidos. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja apenas econômico ou institucional, mas existencial: como reacender o desejo em uma sociedade treinada para não desejar?

A resposta não virá pronta — e talvez seja justamente nesse caminho, que precisa ser vivido, partilhado e construído coletivamente, que ainda resida a possibilidade de esperança.

Leonardo Campos

quinta-feira, 26 de março de 2026

Quando alguém diz “misericórdia, senhor”


Hoje, quando saí pelo portão de casa, a vida não me deixou passar ileso. A cidade já estava em movimento, gente indo, gente voltando, cada um carregando suas pressas invisíveis. E foi ali, entre o dentro e o fora, entre a segurança da casa e a dureza da rua, que uma mulher, magra e alta, me parou. Ela trazia na mão uma sacola de plástico, com alguns pães dentro, o corpo aparentemente cansado e os olhos marejados de quem já pediu muito à vida e recebeu pouco.

O que ela me pediu? Não foi dinheiro. Pediu trabalho. E isso muda tudo.

Disse-me que fazia qualquer coisa — faxina, lavar banheiro, lavar louça, o que aparecesse. Não era só um pedido, era quase um grito baixo, desses que não fazem barulho, mas atravessam. Perguntei até que série ela estudou, e ela respondeu, sem rodeio, com a verdade simples de quem já não tem o que esconder: até a quarta série. Naquele instante, sem perceber, o mundo se reorganizou diante de mim. De um lado, tudo o que a gente costuma repetir — esforço, mérito, correr atrás, “quem quer consegue”. Do outro, aquela mulher, viva, concreta, desmentindo frases prontas com a própria existência.

Eu disse que, se soubesse de algo, a procuraria. E então ela falou baixo, mas fundo, como quem reza sem precisar de igreja: “misericórdia, senhor”.

Essas duas palavras não eram apenas palavras. Eram uma súplica inteira.

Ali, parado no portão de casa, eu entendi que existem momentos em que o debate sobre a sociedade não pode se limitar, como tantas vezes acontece hoje, à divisão entre direita e esquerda. Porque é exatamente ali que ele deixa de ser teoria e vira carne. Eu sei: tem gente que vai olhar para ela e enxergar falta — de estudo, de esforço, de planejamento. E tem gente que vai olhar e enxergar ausência — de oportunidade, de acesso, de cuidado. Não é uma diferença pequena. É uma diferença de mundo.

A fé que nasce do chão da vida, essa que não cabe só nos templos, nunca foi neutra diante disso. O Deus que muitos de nós aprendemos a chamar de Pai não fecha os olhos para quem pede pão — e muito menos para quem pede trabalho. Aquela mulher não estava fazendo discurso, não estava defendendo lado nenhum. Ela só queria uma chance. Mas, sem saber, colocava diante de mim — e de todos nós — uma pergunta incômoda: que tipo de sociedade faz alguém precisar implorar por trabalho logo cedo, na porta da casa de outra pessoa?

Não dá para romantizar isso. Não dá para explicar isso com frases prontas. E, sinceramente, não dá para seguir como se fosse normal. Porque não é. Aquela palavra continua ecoando: misericórdia, senhor. E misericórdia não é sentir pena; é não conseguir mais fingir que não viu. É deixar que aquilo mexa, incomode, desinstale.

Ela seguiu seu caminho. Eu segui o meu. A cidade continuou como se nada tivesse acontecido. Mas alguma coisa ficou ali, parada no portão. Talvez seja isso que realmente importa: não o rótulo que a gente escolhe, não o discurso que a gente repete, mas aquilo que a gente faz depois de um encontro desses. Porque, no fim, a pergunta não é só política. É profundamente humana: quando alguém para na sua frente e diz “misericórdia, senhor”… você consegue continuar como se nada tivesse acontecido?

Leonardo J. D. Campos


segunda-feira, 23 de março de 2026

O som do silêncio e o peso do papel


Muitas vezes, a injustiça não veste máscara de vilão; ela usa o uniforme da burocracia e carrega um talão de multas. Imagine a cena: um homem que dedica a vida a ensinar o encanto das notas musicais, seguindo para mais um dia de trabalho. No trajeto, uma blitz. O que deveria ser um procedimento de rotina torna-se o início de um pesadelo silencioso.

A moto, sua ferramenta indispensável de locomoção e sustento, é apreendida. O motivo? Um “nó” burocrático: o veículo ainda está no nome de um familiar que já partiu, e o inventário — aquele processo lento, caro e distante da realidade de quem vive do próprio esforço — não foi concluído.

A conta é cruel e matemática: o valor para retirar a moto, somado às taxas e trâmites legais, supera o valor do próprio bem. Para o Estado, é apenas um veículo apreendido. Para quem trabalha, é o chão que desaparece sob os pés.

A vida não avisa quando o nó vai apertar; ela simplesmente puxa a corda. O golpe vem seco, num desses dias comuns em que a gente acorda contando os passos e os trocados, com a única ambição de garantir o direito de continuar tentando no dia seguinte. É uma rasteira institucional que não apenas derruba — ela humilha.

Nesse instante, a pergunta que ecoa no asfalto quente é uma só: quando foi que a regra fria passou a valer mais do que a dignidade humana?

Existe um abismo entre o que se escreve nos códigos e o que se vive nas ruas. No papel, a burocracia se justifica; na prática, ela seleciona. E quase sempre escolhe os mesmos: os que vivem no limite, os que não têm advogado, os que não dominam a linguagem dos carimbos, os que não podem errar — porque o erro, para eles, não custa caro, mas tudo.

Não se trata apenas de um bem material. Trata-se de um modelo de Estado que, muitas vezes, é rápido para punir e lento para compreender. Um Estado que exige regularidade de quem nunca teve acesso pleno aos meios para se regularizar. Um Estado que, ao invés de estender a mão, pesa ainda mais sobre quem já carrega o mundo nas costas.

E, no entanto, quando a estrutura falha, o povo responde.

Diante do silêncio da lei, ergue-se o coro da solidariedade. Amigos, colegas e familiares não pedem formulários; oferecem presença. Organizam, mobilizam, constroem uma rede que devolve não só um instrumento de trabalho, mas algo ainda mais essencial: a dignidade ferida.

Mas que isso não nos baste.

A solidariedade é bonita — e necessária —, mas ela não pode ser o remendo permanente de um sistema que insiste em rasgar vidas. Não podemos naturalizar uma cidade, um estado e um país onde sobreviver dependa mais da sorte ou da ajuda dos outros do que de direitos garantidos.

É preciso dizer com todas as letras: não é normal. Não é justo. Não é aceitável.

Precisamos de um Estado que enxergue gente antes de enxergar papel. Que compreenda a realidade antes de aplicar a penalidade. Que proteja o trabalho em vez de inviabilizá-lo.

Porque quando o sistema apreende a ferramenta de quem trabalha, ele não está apenas recolhendo um veículo — está confiscando sonhos, interrompendo trajetórias e aprofundando desigualdades.

E isso, sim, é uma infração grave.

Uma infração contra a justiça social. Uma infração contra o povo. Uma infração contra a própria ideia de humanidade.

Porque hoje é uma moto apreendida. Amanhã pode ser uma multa injusta. Depois, um imposto que sufoca, uma taxa que não cabe no bolso, uma exigência que ignora a vida real. E assim, pouco a pouco, vai se construindo um cotidiano onde o erro do sistema vira culpa do cidadão.

A pergunta que fica já não é sobre um caso — é sobre o rumo: que tipo de sociedade estamos construindo quando viver com dignidade vira um desafio diário? E, mais urgente ainda, até quando vamos aceitar isso como se fosse normal?

Porque, no fim das contas, não se trata apenas de resistir — trata-se de transformar.

Leonardo J. D. Campos

sexta-feira, 13 de março de 2026

O mundo na esquina de casa

No trajeto de sempre, entre uma esquina e outra, o pensamento costuma fugir do horizonte para tentar entender o que nos cerca. A cidade acorda naquele ritmo atropelado que já conhecemos: o suspiro pesado dos ônibus lotados, o som de passos apressados de quem corre contra o relógio e o rosto de cada trabalhador que encara mais um dia de luta.

Foi nesse caminho comum, pelas avenidas Valentim Magalhães, Pedro Américo e Giovanni Battista Pirelli, que algo vem me chamando a atenção nos últimos dias. Ao passar defronte aos postos de combustível, com suas placas luminosas reluzindo números, vejo valores que sobem de um dia para o outro, num fôlego só, quase como se respirassem.

Diante disso, me ponho a questionar se isso não é apenas impressão minha ou se viver está, de fato, ficando mais caro outra vez.

A resposta para essa inquietação, por mais estranho que pareça, não está no frentista, nem na bomba de combustível à nossa frente. Ela mora, na verdade, do outro lado do mundo. Enquanto caminhamos por aqui, o mapa-múndi estremece em tensões que parecem distantes, mas que possuem fios invisíveis conectados diretamente ao nosso bolso.

O conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel ferve em uma região estratégica: o Estreito de Ormuz. Por ali escoa boa parte do petróleo que move o planeta. É uma engrenagem cruel e direta: a guerra ameaça o mar, o valor do barril dispara no mercado internacional e, em um efeito dominó inevitável, os preços sobem na bomba. O frete encarece e o preço do arroz e do feijão salta nas prateleiras do mercado.

É assim que um conflito travado em desertos que nunca pisaremos atravessa oceanos em silêncio e desembarca, sem pedir licença, na esquina da nossa rua. Perceber essa conexão é notar como a política internacional, decidida em gabinetes refrigerados e distantes, acaba pesando na sacola de compras e no aperto de quem precisa fazer o salário esticar até o dia trinta.

Olhando para aquelas placas brilhantes que anunciam os preços, a ficha cai: a política, na sua essência mais pura, não deveria ser sobre quem ganha a disputa de poder, mas sobre quem protege a vida.

Ela deveria existir para zelar por quem acorda antes do sol para garantir o sustento e pelas famílias que fazem contas de cabeça para colocar a janta na mesa. Guerras costumam nascer da sede por território e recursos estratégicos, mas quase sempre deixam como herança apenas o rastro da dor e do sofrimento humano.

No fundo, enquanto retomo meu caminho, olho novamente para os preços no posto e percebo como o mundo é um nó apertado. Estamos todos ligados. Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente este: lembrar aos donos do poder que, acima de qualquer estratégia militar ou barril de petróleo, o primeiro e mais urgente compromisso da política deve ser, sempre e em qualquer lugar, a defesa cega e incondicional da vida.

Leonardo J. D. Campos

quinta-feira, 5 de março de 2026

O Brasil que acorda antes do sol


Hoje acordei às quatro da manhã, como quase sempre. Não há romantismo nisso; é rotina nua e crua. Enquanto a casa ainda mergulha no silêncio, encontro o único momento do dia para organizar a mente antes que o mundo comece a gritar. Fiz o café, vi a gata circular pela cozinha e senti o corpo ainda pesado, pedindo mais alguns minutos de sono. É nesses primeiros gestos simples que me recordo: a vida de verdade não começa nos grandes discursos, mas nas pequenas responsabilidades que assumimos antes mesmo do sol nascer.

Saí às seis e cinquenta, já mais desperto pelo frio da manhã que nos acorda por inteiro. Deixei minha filha mais nova na escola e a vi subir a rampa, de mochila nas costas, falando das tarefas como se aquilo fosse o centro do universo. E, para ela, é. Enquanto ela sumia portão adentro, aquela pergunta que aperta o peito voltou: que país estamos entregando para essa geração? Que escola pública estamos ajudando a construir?

Depois de deixar minha esposa no trabalho, segui pensando na força dessa engrenagem silenciosa que faz o Brasil funcionar. É um exercício diário de planejamento, contas calculadas no detalhe e esforço conjunto. Olhando para essa correria das famílias trabalhadoras, reafirmo algo que não escondo de ninguém: a desigualdade não se cura sozinha. O Estado tem nome, sobrenome e responsabilidade sobre isso. Orçamento tem lado. Num país como o nosso, a neutralidade quase sempre serve para manter privilégios intactos.

No trânsito carregado e estressante, o "Brasil real" bate à janela. O ônibus passa lotado, com gente equilibrando o corpo e as preocupações; os motoboys cruzam as avenidas porque cada minuto é renda; uma mulher segura a bolsa junto ao peito, talvez refazendo as contas sobre o que pagar primeiro. É diante desse quadro que qualquer debate ideológico precisa aterrissar. O Brasil concreto não vive de polarização digital; ele vive de salário, de transporte que funcione e de comida na mesa.

Entre um semáforo e outro, lembrei-me que foi nesse chão que aprendi que a fé não é uma fuga do mundo. O Evangelho que sigo exige um compromisso inegociável com a vida aqui e agora. O Cristo que me inspira nasceu na simplicidade de uma manjedoura, viveu entre os pequenos e denunciou as injustiças do seu tempo. Por isso, para mim, fé e justiça social são partes do mesmo corpo. Minha espiritualidade não me afasta da política — ela me convoca à responsabilidade.

Quando penso nas periferias que já estão de pé na madrugada, nas mulheres que sustentam lares inteiros e nos jovens divididos entre o estudo e o bico, entendo que a esperança não é um espetáculo. É organização e participação viva. Política que não olha para a escola empobrecida ou para a unidade de saúde sobrecarregada não passa de retórica vazia. Não acredito em salvadores da pátria. Acredito em presença, planejamento e no cuidado real com o próximo.

Governar, no fim das contas, é assumir a responsabilidade concreta pela vida das pessoas. Quando vejo minha filha entrando na escola, entendo que o futuro não pode ser uma promessa solta ao vento. Precisa haver coerência entre o que se diz e o que se faz. O Brasil que acorda cedo não se impressiona com frases inflamadas; ele reconhece quem conhece o peso do transporte público e o aperto do orçamento doméstico.

Continuo acreditando que é possível mudar essa realidade com política que tenha lado, com fé encarnada na vida e com coragem para enfrentar desigualdades históricas. Acordar às quatro da manhã é rotina. Acordar para a responsabilidade é uma escolha. E essa é a escolha que faço questão de renovar a cada novo café, nas manhãs de cada dia.

Leonardo J. D. Campos