Tem algo que o tempo me ensinou — não de uma vez, mas no cansaço das horas, na vida acontecendo sem aviso. Quando a gente abre o livro da história, quase nunca encontra uma versão única. O que pulsa ali são disputas; narrativas que se enfrentam, cada qual defendendo o seu quadrado ou os seus privilégios. E eu fui entendendo, aos poucos, que assumir um posicionamento não é luxo — é quase uma obrigação se quisermos, de fato, pertencer a algum lugar nesta vastidão de mundo em que vivemos.
quinta-feira, 30 de abril de 2026
O lado da história
Tem algo que o tempo me ensinou — não de uma vez, mas no cansaço das horas, na vida acontecendo sem aviso. Quando a gente abre o livro da história, quase nunca encontra uma versão única. O que pulsa ali são disputas; narrativas que se enfrentam, cada qual defendendo o seu quadrado ou os seus privilégios. E eu fui entendendo, aos poucos, que assumir um posicionamento não é luxo — é quase uma obrigação se quisermos, de fato, pertencer a algum lugar nesta vastidão de mundo em que vivemos.
quarta-feira, 8 de abril de 2026
A luz que não se esconde
Muitas coisas marcaram minha infância. Algumas são duras de revisitar. Outras, no entanto, permanecem como um abrigo dentro da memória — daquelas que aquecem o coração e continuam ensinando, mesmo depois de tantos anos.
Uma dessas lembranças me leva às noites quentes do verão mineiro, lá em Piacatuba. Eu saía com meu pai pelo pasto do sítio onde morávamos, carregando um vidro nas mãos. Nossa missão era simples e mágica: procurar vaga-lumes.
Corria atrás daquelas pequenas luzes vivas com um encantamento difícil de explicar. Quando conseguia capturar alguns — dez, quinze, talvez — colocava-os dentro do vidro com todo cuidado. Depois, levava aquele pequeno universo luminoso para o quarto e o acomodava acima do berço onde dormia. Era a minha “luz elétrica”.
E que luz.
Numa casa simples, de pau a pique, onde não havia energia elétrica e a lamparina a querosene era o recurso possível, aqueles vaga-lumes iluminavam mais do que o ambiente. Iluminavam a imaginação, o sentimento, os sonhos, a própria infância.
Hoje, olhando para esse tempo, me pergunto se, de alguma forma, não perdemos a capacidade de enxergar essas pequenas luzes.
Vivemos cercados de tecnologia, de telas brilhantes, de uma iluminação que nunca se apaga — mas, curiosamente, parece que tudo anda mais escuro. Temos luz em excesso, mas falta brilho. Falta encantamento.
E talvez falte também sentido.
Porque, no fundo, a vida sempre nos chamou a ser mais do que consumidores de luz. Sempre nos chamou a sermos luz.
Pensando nisso, me fez lembrar das palavras de Jesus, que atravessam o tempo com a mesma força daquelas noites de outrora: “Vocês são a luz do mundo… Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha… Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens…”(Mt. 5, 13-16)
Naquele tempo, eu saía com meu pai em busca de luz para iluminar o quarto. Hoje, percebo que o caminho é outro: não se trata mais de procurar fora, mas de deixar acender por dentro.
Os vaga-lumes que eu guardava no vidro iluminavam a noite por algumas horas. A luz que somos chamados a carregar pode iluminar caminhos inteiros — não pela intensidade, mas pelo sentido.
Talvez o desafio dos nossos dias não seja buscar mais luz — mas reaprender a não escondê-la.
segunda-feira, 6 de abril de 2026
O desejo em tempos de tudo pronto
Há uma crise silenciosa atravessando o nosso tempo — e ela não aparece nos indicadores econômicos, nem nos discursos oficiais. Ela se revela em algo mais íntimo: no esvaziamento do desejo.
As pessoas seguem vivendo. Acordam cedo, trabalham, pagam contas, percorrem a cidade, opinam nas redes. Tudo parece em ordem. Mas, no fundo, algo essencial parece ter enfraquecido: a capacidade de desejar de verdade. Não apenas querer o próximo consumo ou a próxima distração, mas desejar o novo, o diferente, aquilo que ainda não existe — e que, por isso mesmo, precisa ser construído.
E isso não acontece por acaso. Vivemos sob uma lógica que organiza a vida para que tudo venha pronto. A comida chega por aplicativo, o entretenimento é infinito e as respostas aparecem antes mesmo das perguntas. O mundo cabe na palma da mão, mas, curiosamente, a vida parece cada vez menor. Há uma espécie de cansaço que não vem só do excesso de tarefas, mas do excesso de estímulos vazios. Tudo é rápido, acessível, imediato e, ao mesmo tempo, raso.
Nesse cenário, o desejo — que exige tempo, espera e construção — vai sendo substituído por impulsos. Pequenas satisfações que aliviam por instantes, mas não preenchem. E, aos poucos, quase sem perceber, a gente desaprende a desejar. Talvez isso fique mais claro quando olhamos para algo simples da vida. Um namoro “das antigas” não começava pronto; havia a paquera, o cuidado no olhar, a conversa que ia ganhando intimidade aos poucos. Depois vinha o pedido, o compromisso assumido, o tempo de conhecer de verdade. O noivado, o casamento... cada etapa com seu sentido, seu tempo, sua construção. Não era só uma sequência de fatos, era um caminho.
E é nesse caminho que o desejo se alimenta. É ali que nascem as expectativas, os sonhos e o sentido de futuro. Porque desejar não é ter — é construir. Isso vale para o amor, mas também vale para a vida.
O que eu quero construir? O que eu quero ser? Qual é o sentido da minha vida? Para onde eu estou indo?
Essas perguntas, que antes atravessaram a juventude e acompanhavam a vida adulta, hoje muitas vezes nem chegam a ser feitas. E, quando aparecem, encontram dificuldade de resposta, porque o mundo foi sendo reduzido ao agora, ao imediato, ao instante seguinte. O depois — quando existe — pouco importa.
Mas essa não é apenas uma questão íntima, é profundamente política. Uma sociedade que não deseja, não se move. Um povo que perde a capacidade de imaginar um futuro diferente torna-se mais tolerante com o que já está dado — mesmo quando esse “dado” é injusto. Afinal, por que lutar por melhores condições de vida, por mais direitos e por dignidade, se a esperança de mudança já não pulsa com a mesma força?
O que se instala, então, não é a ausência de sofrimento, mas o acúmulo dele — um sofrimento que não encontra canal, escuta nem horizonte coletivo. Esse tipo de dor não se transforma em luta; ele se converte em cansaço. E o cansaço, quando se prolonga, acaba se tornando conformismo. É assim que se constrói uma apatia organizada.
Nesse ambiente, até a política se esvazia. Torna-se mais superficial, mais imediata, mais barulhenta — mas cada vez menos transformadora. Discute-se muito, mas muda-se pouco. Talvez porque esteja faltando algo simples e, ao mesmo tempo, essencial: o encontro. Falta tempo para sentar e conversar sem pressa. Falta escuta de verdade. Falta olhar no olho. Falta o espaço onde a palavra não precisa disputar atenção com notificações.
Falta a roda.
A roda de conversa, de música, de poesia, de partilha. Em volta de um violão, de um pandeiro, de um cavaco — ou mesmo de uma mesa simples. Lugares onde a vida não é performada, mas vivida; onde as histórias circulam, onde o silêncio também fala, onde as pessoas se reconhecem e se constroem mutuamente. Pode parecer pouco diante de tantos problemas grandes, mas não é. É nesses espaços que o desejo reaprende a existir, porque o desejo não nasce do excesso nem do imediato, mas da falta, do tempo e da construção compartilhada.
Ele não floresce no isolamento, mas no encontro, naquilo que se constrói entre pessoas que se reconhecem e se escutam. Por isso, retomar o desejo é também um ato político, na medida em que significa recuperar a capacidade de se abrir ao outro, de investir no encontro e de acreditar que a realidade pode ser transformada mesmo quando ela parece dura demais.
Resistir à lógica do “tudo pronto” é, no fundo, defender a própria vida em sua dimensão mais humana, aquela que não se contenta com respostas rápidas, mas insiste em construir sentidos. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja apenas econômico ou institucional, mas existencial: como reacender o desejo em uma sociedade treinada para não desejar?
A resposta não virá pronta — e talvez seja justamente nesse caminho, que precisa ser vivido, partilhado e construído coletivamente, que ainda resida a possibilidade de esperança.
Leonardo Campos
quinta-feira, 26 de março de 2026
Quando alguém diz “misericórdia, senhor”
O que ela me pediu? Não foi dinheiro. Pediu trabalho. E isso muda tudo.
Disse-me que fazia qualquer coisa — faxina, lavar banheiro, lavar louça, o que aparecesse. Não era só um pedido, era quase um grito baixo, desses que não fazem barulho, mas atravessam. Perguntei até que série ela estudou, e ela respondeu, sem rodeio, com a verdade simples de quem já não tem o que esconder: até a quarta série. Naquele instante, sem perceber, o mundo se reorganizou diante de mim. De um lado, tudo o que a gente costuma repetir — esforço, mérito, correr atrás, “quem quer consegue”. Do outro, aquela mulher, viva, concreta, desmentindo frases prontas com a própria existência.
Eu disse que, se soubesse de algo, a procuraria. E então ela falou baixo, mas fundo, como quem reza sem precisar de igreja: “misericórdia, senhor”.
Essas duas palavras não eram apenas palavras. Eram uma súplica inteira.
Ali, parado no portão de casa, eu entendi que existem momentos em que o debate sobre a sociedade não pode se limitar, como tantas vezes acontece hoje, à divisão entre direita e esquerda. Porque é exatamente ali que ele deixa de ser teoria e vira carne. Eu sei: tem gente que vai olhar para ela e enxergar falta — de estudo, de esforço, de planejamento. E tem gente que vai olhar e enxergar ausência — de oportunidade, de acesso, de cuidado. Não é uma diferença pequena. É uma diferença de mundo.
A fé que nasce do chão da vida, essa que não cabe só nos templos, nunca foi neutra diante disso. O Deus que muitos de nós aprendemos a chamar de Pai não fecha os olhos para quem pede pão — e muito menos para quem pede trabalho. Aquela mulher não estava fazendo discurso, não estava defendendo lado nenhum. Ela só queria uma chance. Mas, sem saber, colocava diante de mim — e de todos nós — uma pergunta incômoda: que tipo de sociedade faz alguém precisar implorar por trabalho logo cedo, na porta da casa de outra pessoa?
Não dá para romantizar isso. Não dá para explicar isso com frases prontas. E, sinceramente, não dá para seguir como se fosse normal. Porque não é. Aquela palavra continua ecoando: misericórdia, senhor. E misericórdia não é sentir pena; é não conseguir mais fingir que não viu. É deixar que aquilo mexa, incomode, desinstale.
Ela seguiu seu caminho. Eu segui o meu. A cidade continuou como se nada tivesse acontecido. Mas alguma coisa ficou ali, parada no portão. Talvez seja isso que realmente importa: não o rótulo que a gente escolhe, não o discurso que a gente repete, mas aquilo que a gente faz depois de um encontro desses. Porque, no fim, a pergunta não é só política. É profundamente humana: quando alguém para na sua frente e diz “misericórdia, senhor”… você consegue continuar como se nada tivesse acontecido?
Leonardo J. D. Campos
segunda-feira, 23 de março de 2026
O som do silêncio e o peso do papel
Muitas vezes, a injustiça não veste máscara de vilão; ela usa o uniforme da burocracia e carrega um talão de multas. Imagine a cena: um homem que dedica a vida a ensinar o encanto das notas musicais, seguindo para mais um dia de trabalho. No trajeto, uma blitz. O que deveria ser um procedimento de rotina torna-se o início de um pesadelo silencioso.
sexta-feira, 13 de março de 2026
O mundo na esquina de casa
No trajeto de sempre, entre uma esquina e outra, o pensamento costuma fugir do horizonte para tentar entender o que nos cerca. A cidade acorda naquele ritmo atropelado que já conhecemos: o suspiro pesado dos ônibus lotados, o som de passos apressados de quem corre contra o relógio e o rosto de cada trabalhador que encara mais um dia de luta.
Foi nesse caminho comum, pelas avenidas Valentim Magalhães, Pedro Américo e Giovanni Battista Pirelli, que algo vem me chamando a atenção nos últimos dias. Ao passar defronte aos postos de combustível, com suas placas luminosas reluzindo números, vejo valores que sobem de um dia para o outro, num fôlego só, quase como se respirassem.
Diante disso, me ponho a questionar se isso não é apenas impressão minha ou se viver está, de fato, ficando mais caro outra vez.
A resposta para essa inquietação, por mais estranho que pareça, não está no frentista, nem na bomba de combustível à nossa frente. Ela mora, na verdade, do outro lado do mundo. Enquanto caminhamos por aqui, o mapa-múndi estremece em tensões que parecem distantes, mas que possuem fios invisíveis conectados diretamente ao nosso bolso.
O conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel ferve em uma região estratégica: o Estreito de Ormuz. Por ali escoa boa parte do petróleo que move o planeta. É uma engrenagem cruel e direta: a guerra ameaça o mar, o valor do barril dispara no mercado internacional e, em um efeito dominó inevitável, os preços sobem na bomba. O frete encarece e o preço do arroz e do feijão salta nas prateleiras do mercado.
É assim que um conflito travado em desertos que nunca pisaremos atravessa oceanos em silêncio e desembarca, sem pedir licença, na esquina da nossa rua. Perceber essa conexão é notar como a política internacional, decidida em gabinetes refrigerados e distantes, acaba pesando na sacola de compras e no aperto de quem precisa fazer o salário esticar até o dia trinta.
Olhando para aquelas placas brilhantes que anunciam os preços, a ficha cai: a política, na sua essência mais pura, não deveria ser sobre quem ganha a disputa de poder, mas sobre quem protege a vida.
Ela deveria existir para zelar por quem acorda antes do sol para garantir o sustento e pelas famílias que fazem contas de cabeça para colocar a janta na mesa. Guerras costumam nascer da sede por território e recursos estratégicos, mas quase sempre deixam como herança apenas o rastro da dor e do sofrimento humano.
No fundo, enquanto retomo meu caminho, olho novamente para os preços no posto e percebo como o mundo é um nó apertado. Estamos todos ligados. Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente este: lembrar aos donos do poder que, acima de qualquer estratégia militar ou barril de petróleo, o primeiro e mais urgente compromisso da política deve ser, sempre e em qualquer lugar, a defesa cega e incondicional da vida.
Leonardo J. D. Campos
quinta-feira, 5 de março de 2026
O Brasil que acorda antes do sol
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Tempo de escolha
Este ano de 2026 se impõe a nós como um tempo de disputa: disputa de sentidos, de projetos, de valores. Nada está dado. O país que habitamos segue sendo um campo de batalha entre a vida que insiste em florescer e forças que apostam no lucro, no privilégio e na exclusão. Este ano não pede neutralidade; exige posicionamento claro, em alto e bom som.
Não haverá como escapar das lutas que nos atravessam. E elas não serão apenas individuais. Serão, sobretudo, lutas coletivas, travadas no cotidiano das periferias, nos locais de trabalho, nas escolas, nas igrejas, nas ruas e, de modo decisivo, nas urnas. A fé cristã, quando fiel ao Evangelho, não se acomoda diante da injustiça. Jesus não foi neutro diante da fome, da opressão e da hipocrisia do poder. Ele tomou partido da vida.
Este ano nos desafia a fazer diferente também na política. A romper com a indiferença travestida de prudência, com o discurso que iguala opressores e oprimidos, com a ideia de que “tanto faz”. Não faz. As escolhas importam. Importam quem governa, para quem governa e a serviço de quais interesses.
Coragem será necessária para defender o que é público, para afirmar que direitos não são favores, para sustentar que ninguém é descartável. Coragem para dizer que democracia se constrói com participação, não com ódio; com diálogo, não com armas; com políticas que cuidam, não com discursos que ferem.
As eleições não se definem por si só. Não se tratam apenas de um rito formal, mas de um chamado à responsabilidade histórica. Votar é um gesto político, mas também ético. É decidir de que lado da história queremos estar: se ao lado da vida concreta do povo ou dos privilégios de poucos; se ao lado da esperança organizada ou do medo manipulado.
Sonhar com um Brasil mais justo, solidário e fraterno não é utopia vazia. É herança de lutas, de sangue, de suor e de fé. É afirmar que o pão deve ser repartido, que a terra deve cumprir sua função social, que a economia deve servir à vida e que o Estado não pode abandonar os mais pobres. “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mateus 25,40).
Que possamos estar atentos, críticos e comprometidos. Que nossa fé não se feche nos templos, mas caminhe pelas ruas. Que nossa esperança não seja ingênua, mas organizada. E que nossa ação política seja expressão do amor que o Evangelho exige: um amor que incomoda, que confronta e que transforma.
Porque este ano será decisivo. E a história — como sempre — será escrita pelas escolhas que fizermos, individualmente e como povo. Que saibamos escolher a vida, a justiça e o futuro.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
O chão da cultura no Grande ABC
Partindo desta ótica, me volto ao ABC paulista, um território onde a cultura nunca foi luxo. Aqui, a arte sempre esteve ligada à sobrevivência. Conheço músicos que atravessam a cidade após um dia inteiro de trabalho; escritores que escrevem de madrugada; poetas que bancam a própria publicação; artistas que improvisam ateliês em casa; atores que ensaiam sem saber se haverá público ou cachê. É nesse cotidiano silencioso que a cultura resiste e se reinventa.
Quando um filme brasileiro ganha o mundo, ele não nasce do nada, mas do esforço, da precariedade e da persistência que começam nos bairros, nas periferias, nos coletivos culturais, nos espaços comunitários e nos editais disputados com enorme dificuldade.
Vale lembrar que o Brasil viveu, não há muito tempo, um período marcado por ataques deliberados à cultura. A arte foi tratada como inimiga, o artista como suspeito e o investimento cultural como desperdício. Esse discurso desceu para as cidades, atingiu o ABC, fechou espaços, interrompeu projetos e empurrou muitos profissionais para a informalidade. O empobrecimento gerado ali foi também simbólico e coletivo, e seus efeitos ainda são sentidos.
Por isso, é fundamental reafirmar: cultura é trabalho, é direito e é política pública. Não existe cinema premiado sem Estado presente, assim como não existe cultura viva sem territórios fortalecidos. O ABC tem talentos suficientes para ocupar palcos, telas e feiras em qualquer lugar do mundo. O que falta não é criatividade, é prioridade política.
Celebrar um prêmio internacional só faz sentido quando ele se transforma em acesso, orçamento, continuidade e dignidade para quem faz arte no cotidiano. É justo comemorar quando o mundo aplaude o cinema brasileiro, mas a vitória só se completa quando esse reconhecimento chega aqui dentro como política pública. Sem isso, o aplauso é distante; com isso, vira sustento, pertencimento e futuro.
Leonardo J. D. Campos
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Dia do Mártir São Sebastião
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Quando a fé se torna ação prática

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Quando a fé vira alvo
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
O pão que o capitalismo não explica
Voltei para casa com o corpo cansado e o pensamento desperto. Eu e meu irmão passamos o dia inteiro levantando um muro de blocos tipo baiano que havia desabado depois dos ventos fortes que castigaram Santo André. Na periferia, quando algo cai, não se espera. A resposta vem do braço estendido, do mutirão improvisado, da solidariedade que antecede qualquer política pública.
No caminho de volta, minha filha mais nova vinha comigo. Já perto de casa, ao passar em frente à padaria do bairro, pedi que ela entrasse e comprasse dez pães. Em casa, algumas amigas da família se reuniam. Nada sofisticado: pão, vinho, conversa e presença. O essencial que sustenta a vida quando quase tudo falta.
Minha filha fez o pedido e ouviu do dono da padaria, com a naturalidade de quem conhece a rua: — Sua irmã mais velha já passou aqui agora há pouco e levou pão.
Essa frase simples carrega uma escolha. Ali, o centro não era a venda. O lucro não comandava o gesto. O que estava em jogo era a relação. Ele sabia quem éramos. Sabia quem eram nossas filhas. Sabia de nossos passos. Não havia ali a frieza do caixa, mas a memória do convívio.
Na lógica dominante, seria diferente. Sem relação, o importante é vender. Pouco importa se alguém da mesma casa já comprou, pouco importa se o pão vai sobrar ou faltar. Pessoas viram clientes, encontros viram transações e o pão vira apenas mercadoria. Quando tudo vira mercadoria, a vida perde densidade, o rosto perde nome e a cidade perde alma.
Na comunidade, o pão ainda guarda outro sentido. Ele não é só produto — é partilha. Não é só consumo — é cuidado. O balcão não separa; aproxima. A padaria vira extensão da casa, e a rua, espaço de pertencimento. Ali, repartir vale mais que acumular, e conhecer vale mais que lucrar.
Este fato me fez lembrar de Jesus que sempre caminhou por lugares assim. Sentou-se à mesa com gente comum, repartiu o pão e o vinho, reconheceu rostos antes de contar moedas. Nunca perguntou quem podia pagar, mas quem tinha fome. Nunca fez da fé um negócio, nem da vida uma mercadoria. Seu gesto era simples e, por isso mesmo, profundamente subversivo.
Talvez o padeiro nem tenha se dado conta, mas naquele instante ele repetiu esse gesto. Ao não vender mais dez pães, afirmou — sem discurso — que a vida vale mais que o lucro, que a relação vale mais que a transação, que o cuidado vale mais que o acúmulo. Isso é política em estado puro, feita sem palanque e sem microfone.
Nos grandes centros, uma cena assim soa improvável. A cidade moldada pelo capital precisa do anonimato, da pressa e da indiferença. Transforma ruas em corredores, pessoas em números e vínculos em obstáculos. Comunidade atrapalha. Relação incomoda. Humanidade dá prejuízo.
Naquele dia, não deixamos de comprar pão. Ganhamos consciência. Entendemos que a salvação não mora fora da vida, nem depois dela. Ela se constrói quando o pão e o vinho deixam de ser mercadoria e voltam a ser sinal. Quando a cidade recusa ser apenas mercado e reaprende a ser casa.
E enquanto ainda existirem lugares onde o padeiro conhece nossas filhas pelo nome, o projeto da indiferença não se completa. Porque vínculo não é atraso — é enfrentamento.
Leonardo J. D. Campos








