quinta-feira, 30 de abril de 2026

O lado da história


Tem algo que o tempo me ensinou — não de uma vez, mas no cansaço das horas, na vida acontecendo sem aviso. Quando a gente abre o livro da história, quase nunca encontra uma versão única. O que pulsa ali são disputas; narrativas que se enfrentam, cada qual defendendo o seu quadrado ou os seus privilégios. E eu fui entendendo, aos poucos, que assumir um posicionamento não é luxo — é quase uma obrigação se quisermos, de fato, pertencer a algum lugar nesta vastidão de mundo em que vivemos.

Essa consciência não veio pronta para mim. Foi sendo moldada no dia a dia, nas conversas simples — muitas vezes na calçada, no portão, no fim de tarde —, nas dores que não saem nos noticiários e nas dúvidas que insistem em visitar a madrugada. É uma construção feita nos desencontros que nos obrigam a enxergar o que a pressa tenta esconder: a verdade das dificuldades diárias, o toque áspero dos pés descalços nos atalhos da vida e o silêncio doído de um prato vazio que, às vezes, fala mais alto que qualquer discurso.

É nesse ponto que a pergunta se torna inevitável — e, confesso, já me pegou mais de uma vez: de que lado estamos?

Pergunto isso porque ainda me causa espanto ouvir tanta gente dizer que é cristã enquanto defende a pena de morte, a ditadura ou a tortura. Que cristianismo é esse? Parece contraditório quando olhamos para o que, na prática, significa seguir Jesus Cristo. Será que já nos demos conta de que segui-lo é, na essência, seguir um prisioneiro? Um homem que foi perseguido, torturado e condenado à morte pelo sistema político da sua época?

Seguir a Jesus Cristo é, portanto, assumir um lado na sociedade. E eu fui compreendendo isso na caminhada. É escolher defender a vida, a justiça e a promessa de “que todos tenham vida e a tenham em abundância”. É colocar-se, sem hesitação, "na fileira dos oprimidos" e não se calar diante das injustiças que trituram o próximo. É entender que o “amar uns aos outros” não aceita notas de rodapé: é um amor que não pergunta antes de acolher, que não seleciona quem merece.

Assumir essa coerência não é tarefa fácil — eu sei disso na pele. E custa caro. No Brasil de hoje, marcado por uma polarização que atravessa até as relações mais simples, essa postura incomoda. As pessoas já não se escutam como antes. Aqueles encontros na praça, no fim da tarde, para “jogar conversa fora” e deixar o tempo passar, parecem coisa de outro tempo — quase uma lembrança distante de quando o diálogo ainda tinha morada.

Essa disseminação de rancor me inquieta profundamente, mas não me permite a indiferença. É justamente nesse cenário que encontro meu prumo ao escolher ser discípulo de Jesus Cristo. Não o Cristo distante, intocável, mas Aquele que nasceu na pobreza de uma manjedoura porque não havia lugar para Ele nas hospedarias do sistema. Sigo aquele que gastou a sola do pé na poeira, que olhou nos olhos dos invisíveis e que ousou sentar à mesa com quem o mundo já tinha descartado — e, sendo sincero, é esse jeito que me desafia todos os dias.

Na crueza dos fatos, ser discípulo é entender a trajetória de um prisioneiro político que incomodou o status quo ao denunciar a hipocrisia das leis que pesam sobre os pequenos enquanto protegem os grandes. Ele mexeu nas estruturas e pagou o preço mais alto, sendo fiel até o último suspiro à urgência da vida que pregava. E é essa mesma urgência que, muitas vezes, me tira do conforto e me coloca de pé na lida da comunidade — seja nas missas aos domingos, nas reuniões da associação, na escrita que resgata a memória local ou na luta contra a burocracia que insiste em apagar vozes.

Escolher esse caminho não é romantizar a dor — é assumir o compromisso de não fugir dela quando ela revela injustiça. Ainda assim, eu escolho acreditar. Escolho não deixar o coração endurecer enquanto as praças permanecem vazias de diálogo. Escolho tentar, todos os dias, ser minimamente coerente com o que escrevo e com o que digo professar — mesmo sabendo que nem sempre consigo.

Porque, no fim das contas, a gente não escolhe apenas uma versão da história para observar de longe. A gente escolhe o tipo de história que quer ajudar a construir com as próprias mãos.

Leonardo J. D. Campos

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A luz que não se esconde

Muitas coisas marcaram minha infância. Algumas são duras de revisitar. Outras, no entanto, permanecem como um abrigo dentro da memória — daquelas que aquecem o coração e continuam ensinando, mesmo depois de tantos anos.

Uma dessas lembranças me leva às noites quentes do verão mineiro, lá em Piacatuba. Eu saía com meu pai pelo pasto do sítio onde morávamos, carregando um vidro nas mãos. Nossa missão era simples e mágica: procurar vaga-lumes.

Corria atrás daquelas pequenas luzes vivas com um encantamento difícil de explicar. Quando conseguia capturar alguns — dez, quinze, talvez — colocava-os dentro do vidro com todo cuidado. Depois, levava aquele pequeno universo luminoso para o quarto e o acomodava acima do berço onde dormia. Era a minha “luz elétrica”.

E que luz.

Numa casa simples, de pau a pique, onde não havia energia elétrica e a lamparina a querosene era o recurso possível, aqueles vaga-lumes iluminavam mais do que o ambiente. Iluminavam a imaginação, o sentimento, os sonhos, a própria infância.

Hoje, olhando para esse tempo, me pergunto se, de alguma forma, não perdemos a capacidade de enxergar essas pequenas luzes.

Vivemos cercados de tecnologia, de telas brilhantes, de uma iluminação que nunca se apaga — mas, curiosamente, parece que tudo anda mais escuro. Temos luz em excesso, mas falta brilho. Falta encantamento.

E talvez falte também sentido.

Porque, no fundo, a vida sempre nos chamou a ser mais do que consumidores de luz. Sempre nos chamou a sermos luz.

Pensando nisso, me fez lembrar das palavras de Jesus, que atravessam o tempo com a mesma força daquelas noites de outrora: “Vocês são a luz do mundo… Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha… Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens…”(Mt. 5, 13-16)

Naquele tempo, eu saía com meu pai em busca de luz para iluminar o quarto. Hoje, percebo que o caminho é outro: não se trata mais de procurar fora, mas de deixar acender por dentro.

Os vaga-lumes que eu guardava no vidro iluminavam a noite por algumas horas. A luz que somos chamados a carregar pode iluminar caminhos inteiros — não pela intensidade, mas pelo sentido.

Talvez o desafio dos nossos dias não seja buscar mais luz — mas reaprender a não escondê-la.

Porque ainda há muita escuridão no mundo e, ainda há, dentro de cada um de nós, uma pequena luz esperando coragem para brilhar, para fazer a diferença e aquilo que for necessário para viver uma vida feliz e de paz.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

O desejo em tempos de tudo pronto

Há uma crise silenciosa atravessando o nosso tempo — e ela não aparece nos indicadores econômicos, nem nos discursos oficiais. Ela se revela em algo mais íntimo: no esvaziamento do desejo.

As pessoas seguem vivendo. Acordam cedo, trabalham, pagam contas, percorrem a cidade, opinam nas redes. Tudo parece em ordem. Mas, no fundo, algo essencial parece ter enfraquecido: a capacidade de desejar de verdade. Não apenas querer o próximo consumo ou a próxima distração, mas desejar o novo, o diferente, aquilo que ainda não existe — e que, por isso mesmo, precisa ser construído.

E isso não acontece por acaso. Vivemos sob uma lógica que organiza a vida para que tudo venha pronto. A comida chega por aplicativo, o entretenimento é infinito e as respostas aparecem antes mesmo das perguntas. O mundo cabe na palma da mão, mas, curiosamente, a vida parece cada vez menor. Há uma espécie de cansaço que não vem só do excesso de tarefas, mas do excesso de estímulos vazios. Tudo é rápido, acessível, imediato e, ao mesmo tempo, raso.

Nesse cenário, o desejo — que exige tempo, espera e construção — vai sendo substituído por impulsos. Pequenas satisfações que aliviam por instantes, mas não preenchem. E, aos poucos, quase sem perceber, a gente desaprende a desejar. Talvez isso fique mais claro quando olhamos para algo simples da vida. Um namoro “das antigas” não começava pronto; havia a paquera, o cuidado no olhar, a conversa que ia ganhando intimidade aos poucos. Depois vinha o pedido, o compromisso assumido, o tempo de conhecer de verdade. O noivado, o casamento... cada etapa com seu sentido, seu tempo, sua construção. Não era só uma sequência de fatos, era um caminho.

E é nesse caminho que o desejo se alimenta. É ali que nascem as expectativas, os sonhos e o sentido de futuro. Porque desejar não é ter — é construir. Isso vale para o amor, mas também vale para a vida.

O que eu quero construir? O que eu quero ser? Qual é o sentido da minha vida? Para onde eu estou indo?

Essas perguntas, que antes atravessaram a juventude e acompanhavam a vida adulta, hoje muitas vezes nem chegam a ser feitas. E, quando aparecem, encontram dificuldade de resposta, porque o mundo foi sendo reduzido ao agora, ao imediato, ao instante seguinte. O depois — quando existe — pouco importa.

Mas essa não é apenas uma questão íntima, é profundamente política. Uma sociedade que não deseja, não se move. Um povo que perde a capacidade de imaginar um futuro diferente torna-se mais tolerante com o que já está dado — mesmo quando esse “dado” é injusto. Afinal, por que lutar por melhores condições de vida, por mais direitos e por dignidade, se a esperança de mudança já não pulsa com a mesma força?

O que se instala, então, não é a ausência de sofrimento, mas o acúmulo dele — um sofrimento que não encontra canal, escuta nem horizonte coletivo. Esse tipo de dor não se transforma em luta; ele se converte em cansaço. E o cansaço, quando se prolonga, acaba se tornando conformismo. É assim que se constrói uma apatia organizada.

Nesse ambiente, até a política se esvazia. Torna-se mais superficial, mais imediata, mais barulhenta — mas cada vez menos transformadora. Discute-se muito, mas muda-se pouco. Talvez porque esteja faltando algo simples e, ao mesmo tempo, essencial: o encontro. Falta tempo para sentar e conversar sem pressa. Falta escuta de verdade. Falta olhar no olho. Falta o espaço onde a palavra não precisa disputar atenção com notificações.

Falta a roda.

A roda de conversa, de música, de poesia, de partilha. Em volta de um violão, de um pandeiro, de um cavaco — ou mesmo de uma mesa simples. Lugares onde a vida não é performada, mas vivida; onde as histórias circulam, onde o silêncio também fala, onde as pessoas se reconhecem e se constroem mutuamente. Pode parecer pouco diante de tantos problemas grandes, mas não é. É nesses espaços que o desejo reaprende a existir, porque o desejo não nasce do excesso nem do imediato, mas da falta, do tempo e da construção compartilhada.

Ele não floresce no isolamento, mas no encontro, naquilo que se constrói entre pessoas que se reconhecem e se escutam. Por isso, retomar o desejo é também um ato político, na medida em que significa recuperar a capacidade de se abrir ao outro, de investir no encontro e de acreditar que a realidade pode ser transformada mesmo quando ela parece dura demais.

Resistir à lógica do “tudo pronto” é, no fundo, defender a própria vida em sua dimensão mais humana, aquela que não se contenta com respostas rápidas, mas insiste em construir sentidos. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja apenas econômico ou institucional, mas existencial: como reacender o desejo em uma sociedade treinada para não desejar?

A resposta não virá pronta — e talvez seja justamente nesse caminho, que precisa ser vivido, partilhado e construído coletivamente, que ainda resida a possibilidade de esperança.

Leonardo Campos

quinta-feira, 26 de março de 2026

Quando alguém diz “misericórdia, senhor”


Hoje, quando saí pelo portão de casa, a vida não me deixou passar ileso. A cidade já estava em movimento, gente indo, gente voltando, cada um carregando suas pressas invisíveis. E foi ali, entre o dentro e o fora, entre a segurança da casa e a dureza da rua, que uma mulher, magra e alta, me parou. Ela trazia na mão uma sacola de plástico, com alguns pães dentro, o corpo aparentemente cansado e os olhos marejados de quem já pediu muito à vida e recebeu pouco.

O que ela me pediu? Não foi dinheiro. Pediu trabalho. E isso muda tudo.

Disse-me que fazia qualquer coisa — faxina, lavar banheiro, lavar louça, o que aparecesse. Não era só um pedido, era quase um grito baixo, desses que não fazem barulho, mas atravessam. Perguntei até que série ela estudou, e ela respondeu, sem rodeio, com a verdade simples de quem já não tem o que esconder: até a quarta série. Naquele instante, sem perceber, o mundo se reorganizou diante de mim. De um lado, tudo o que a gente costuma repetir — esforço, mérito, correr atrás, “quem quer consegue”. Do outro, aquela mulher, viva, concreta, desmentindo frases prontas com a própria existência.

Eu disse que, se soubesse de algo, a procuraria. E então ela falou baixo, mas fundo, como quem reza sem precisar de igreja: “misericórdia, senhor”.

Essas duas palavras não eram apenas palavras. Eram uma súplica inteira.

Ali, parado no portão de casa, eu entendi que existem momentos em que o debate sobre a sociedade não pode se limitar, como tantas vezes acontece hoje, à divisão entre direita e esquerda. Porque é exatamente ali que ele deixa de ser teoria e vira carne. Eu sei: tem gente que vai olhar para ela e enxergar falta — de estudo, de esforço, de planejamento. E tem gente que vai olhar e enxergar ausência — de oportunidade, de acesso, de cuidado. Não é uma diferença pequena. É uma diferença de mundo.

A fé que nasce do chão da vida, essa que não cabe só nos templos, nunca foi neutra diante disso. O Deus que muitos de nós aprendemos a chamar de Pai não fecha os olhos para quem pede pão — e muito menos para quem pede trabalho. Aquela mulher não estava fazendo discurso, não estava defendendo lado nenhum. Ela só queria uma chance. Mas, sem saber, colocava diante de mim — e de todos nós — uma pergunta incômoda: que tipo de sociedade faz alguém precisar implorar por trabalho logo cedo, na porta da casa de outra pessoa?

Não dá para romantizar isso. Não dá para explicar isso com frases prontas. E, sinceramente, não dá para seguir como se fosse normal. Porque não é. Aquela palavra continua ecoando: misericórdia, senhor. E misericórdia não é sentir pena; é não conseguir mais fingir que não viu. É deixar que aquilo mexa, incomode, desinstale.

Ela seguiu seu caminho. Eu segui o meu. A cidade continuou como se nada tivesse acontecido. Mas alguma coisa ficou ali, parada no portão. Talvez seja isso que realmente importa: não o rótulo que a gente escolhe, não o discurso que a gente repete, mas aquilo que a gente faz depois de um encontro desses. Porque, no fim, a pergunta não é só política. É profundamente humana: quando alguém para na sua frente e diz “misericórdia, senhor”… você consegue continuar como se nada tivesse acontecido?

Leonardo J. D. Campos


segunda-feira, 23 de março de 2026

O som do silêncio e o peso do papel


Muitas vezes, a injustiça não veste máscara de vilão; ela usa o uniforme da burocracia e carrega um talão de multas. Imagine a cena: um homem que dedica a vida a ensinar o encanto das notas musicais, seguindo para mais um dia de trabalho. No trajeto, uma blitz. O que deveria ser um procedimento de rotina torna-se o início de um pesadelo silencioso.

A moto, sua ferramenta indispensável de locomoção e sustento, é apreendida. O motivo? Um “nó” burocrático: o veículo ainda está no nome de um familiar que já partiu, e o inventário — aquele processo lento, caro e distante da realidade de quem vive do próprio esforço — não foi concluído.

A conta é cruel e matemática: o valor para retirar a moto, somado às taxas e trâmites legais, supera o valor do próprio bem. Para o Estado, é apenas um veículo apreendido. Para quem trabalha, é o chão que desaparece sob os pés.

A vida não avisa quando o nó vai apertar; ela simplesmente puxa a corda. O golpe vem seco, num desses dias comuns em que a gente acorda contando os passos e os trocados, com a única ambição de garantir o direito de continuar tentando no dia seguinte. É uma rasteira institucional que não apenas derruba — ela humilha.

Nesse instante, a pergunta que ecoa no asfalto quente é uma só: quando foi que a regra fria passou a valer mais do que a dignidade humana?

Existe um abismo entre o que se escreve nos códigos e o que se vive nas ruas. No papel, a burocracia se justifica; na prática, ela seleciona. E quase sempre escolhe os mesmos: os que vivem no limite, os que não têm advogado, os que não dominam a linguagem dos carimbos, os que não podem errar — porque o erro, para eles, não custa caro, mas tudo.

Não se trata apenas de um bem material. Trata-se de um modelo de Estado que, muitas vezes, é rápido para punir e lento para compreender. Um Estado que exige regularidade de quem nunca teve acesso pleno aos meios para se regularizar. Um Estado que, ao invés de estender a mão, pesa ainda mais sobre quem já carrega o mundo nas costas.

E, no entanto, quando a estrutura falha, o povo responde.

Diante do silêncio da lei, ergue-se o coro da solidariedade. Amigos, colegas e familiares não pedem formulários; oferecem presença. Organizam, mobilizam, constroem uma rede que devolve não só um instrumento de trabalho, mas algo ainda mais essencial: a dignidade ferida.

Mas que isso não nos baste.

A solidariedade é bonita — e necessária —, mas ela não pode ser o remendo permanente de um sistema que insiste em rasgar vidas. Não podemos naturalizar uma cidade, um estado e um país onde sobreviver dependa mais da sorte ou da ajuda dos outros do que de direitos garantidos.

É preciso dizer com todas as letras: não é normal. Não é justo. Não é aceitável.

Precisamos de um Estado que enxergue gente antes de enxergar papel. Que compreenda a realidade antes de aplicar a penalidade. Que proteja o trabalho em vez de inviabilizá-lo.

Porque quando o sistema apreende a ferramenta de quem trabalha, ele não está apenas recolhendo um veículo — está confiscando sonhos, interrompendo trajetórias e aprofundando desigualdades.

E isso, sim, é uma infração grave.

Uma infração contra a justiça social. Uma infração contra o povo. Uma infração contra a própria ideia de humanidade.

Porque hoje é uma moto apreendida. Amanhã pode ser uma multa injusta. Depois, um imposto que sufoca, uma taxa que não cabe no bolso, uma exigência que ignora a vida real. E assim, pouco a pouco, vai se construindo um cotidiano onde o erro do sistema vira culpa do cidadão.

A pergunta que fica já não é sobre um caso — é sobre o rumo: que tipo de sociedade estamos construindo quando viver com dignidade vira um desafio diário? E, mais urgente ainda, até quando vamos aceitar isso como se fosse normal?

Porque, no fim das contas, não se trata apenas de resistir — trata-se de transformar.

Leonardo J. D. Campos

sexta-feira, 13 de março de 2026

O mundo na esquina de casa

No trajeto de sempre, entre uma esquina e outra, o pensamento costuma fugir do horizonte para tentar entender o que nos cerca. A cidade acorda naquele ritmo atropelado que já conhecemos: o suspiro pesado dos ônibus lotados, o som de passos apressados de quem corre contra o relógio e o rosto de cada trabalhador que encara mais um dia de luta.

Foi nesse caminho comum, pelas avenidas Valentim Magalhães, Pedro Américo e Giovanni Battista Pirelli, que algo vem me chamando a atenção nos últimos dias. Ao passar defronte aos postos de combustível, com suas placas luminosas reluzindo números, vejo valores que sobem de um dia para o outro, num fôlego só, quase como se respirassem.

Diante disso, me ponho a questionar se isso não é apenas impressão minha ou se viver está, de fato, ficando mais caro outra vez.

A resposta para essa inquietação, por mais estranho que pareça, não está no frentista, nem na bomba de combustível à nossa frente. Ela mora, na verdade, do outro lado do mundo. Enquanto caminhamos por aqui, o mapa-múndi estremece em tensões que parecem distantes, mas que possuem fios invisíveis conectados diretamente ao nosso bolso.

O conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel ferve em uma região estratégica: o Estreito de Ormuz. Por ali escoa boa parte do petróleo que move o planeta. É uma engrenagem cruel e direta: a guerra ameaça o mar, o valor do barril dispara no mercado internacional e, em um efeito dominó inevitável, os preços sobem na bomba. O frete encarece e o preço do arroz e do feijão salta nas prateleiras do mercado.

É assim que um conflito travado em desertos que nunca pisaremos atravessa oceanos em silêncio e desembarca, sem pedir licença, na esquina da nossa rua. Perceber essa conexão é notar como a política internacional, decidida em gabinetes refrigerados e distantes, acaba pesando na sacola de compras e no aperto de quem precisa fazer o salário esticar até o dia trinta.

Olhando para aquelas placas brilhantes que anunciam os preços, a ficha cai: a política, na sua essência mais pura, não deveria ser sobre quem ganha a disputa de poder, mas sobre quem protege a vida.

Ela deveria existir para zelar por quem acorda antes do sol para garantir o sustento e pelas famílias que fazem contas de cabeça para colocar a janta na mesa. Guerras costumam nascer da sede por território e recursos estratégicos, mas quase sempre deixam como herança apenas o rastro da dor e do sofrimento humano.

No fundo, enquanto retomo meu caminho, olho novamente para os preços no posto e percebo como o mundo é um nó apertado. Estamos todos ligados. Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente este: lembrar aos donos do poder que, acima de qualquer estratégia militar ou barril de petróleo, o primeiro e mais urgente compromisso da política deve ser, sempre e em qualquer lugar, a defesa cega e incondicional da vida.

Leonardo J. D. Campos

quinta-feira, 5 de março de 2026

O Brasil que acorda antes do sol


Hoje acordei às quatro da manhã, como quase sempre. Não há romantismo nisso; é rotina nua e crua. Enquanto a casa ainda mergulha no silêncio, encontro o único momento do dia para organizar a mente antes que o mundo comece a gritar. Fiz o café, vi a gata circular pela cozinha e senti o corpo ainda pesado, pedindo mais alguns minutos de sono. É nesses primeiros gestos simples que me recordo: a vida de verdade não começa nos grandes discursos, mas nas pequenas responsabilidades que assumimos antes mesmo do sol nascer.

Saí às seis e cinquenta, já mais desperto pelo frio da manhã que nos acorda por inteiro. Deixei minha filha mais nova na escola e a vi subir a rampa, de mochila nas costas, falando das tarefas como se aquilo fosse o centro do universo. E, para ela, é. Enquanto ela sumia portão adentro, aquela pergunta que aperta o peito voltou: que país estamos entregando para essa geração? Que escola pública estamos ajudando a construir?

Depois de deixar minha esposa no trabalho, segui pensando na força dessa engrenagem silenciosa que faz o Brasil funcionar. É um exercício diário de planejamento, contas calculadas no detalhe e esforço conjunto. Olhando para essa correria das famílias trabalhadoras, reafirmo algo que não escondo de ninguém: a desigualdade não se cura sozinha. O Estado tem nome, sobrenome e responsabilidade sobre isso. Orçamento tem lado. Num país como o nosso, a neutralidade quase sempre serve para manter privilégios intactos.

No trânsito carregado e estressante, o "Brasil real" bate à janela. O ônibus passa lotado, com gente equilibrando o corpo e as preocupações; os motoboys cruzam as avenidas porque cada minuto é renda; uma mulher segura a bolsa junto ao peito, talvez refazendo as contas sobre o que pagar primeiro. É diante desse quadro que qualquer debate ideológico precisa aterrissar. O Brasil concreto não vive de polarização digital; ele vive de salário, de transporte que funcione e de comida na mesa.

Entre um semáforo e outro, lembrei-me que foi nesse chão que aprendi que a fé não é uma fuga do mundo. O Evangelho que sigo exige um compromisso inegociável com a vida aqui e agora. O Cristo que me inspira nasceu na simplicidade de uma manjedoura, viveu entre os pequenos e denunciou as injustiças do seu tempo. Por isso, para mim, fé e justiça social são partes do mesmo corpo. Minha espiritualidade não me afasta da política — ela me convoca à responsabilidade.

Quando penso nas periferias que já estão de pé na madrugada, nas mulheres que sustentam lares inteiros e nos jovens divididos entre o estudo e o bico, entendo que a esperança não é um espetáculo. É organização e participação viva. Política que não olha para a escola empobrecida ou para a unidade de saúde sobrecarregada não passa de retórica vazia. Não acredito em salvadores da pátria. Acredito em presença, planejamento e no cuidado real com o próximo.

Governar, no fim das contas, é assumir a responsabilidade concreta pela vida das pessoas. Quando vejo minha filha entrando na escola, entendo que o futuro não pode ser uma promessa solta ao vento. Precisa haver coerência entre o que se diz e o que se faz. O Brasil que acorda cedo não se impressiona com frases inflamadas; ele reconhece quem conhece o peso do transporte público e o aperto do orçamento doméstico.

Continuo acreditando que é possível mudar essa realidade com política que tenha lado, com fé encarnada na vida e com coragem para enfrentar desigualdades históricas. Acordar às quatro da manhã é rotina. Acordar para a responsabilidade é uma escolha. E essa é a escolha que faço questão de renovar a cada novo café, nas manhãs de cada dia.

Leonardo J. D. Campos

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Tempo de escolha

Este ano de 2026 se impõe a nós como um tempo de disputa: disputa de sentidos, de projetos, de valores. Nada está dado. O país que habitamos segue sendo um campo de batalha entre a vida que insiste em florescer e forças que apostam no lucro, no privilégio e na exclusão. Este ano não pede neutralidade; exige posicionamento claro, em alto e bom som.

Não haverá como escapar das lutas que nos atravessam. E elas não serão apenas individuais. Serão, sobretudo, lutas coletivas, travadas no cotidiano das periferias, nos locais de trabalho, nas escolas, nas igrejas, nas ruas e, de modo decisivo, nas urnas. A fé cristã, quando fiel ao Evangelho, não se acomoda diante da injustiça. Jesus não foi neutro diante da fome, da opressão e da hipocrisia do poder. Ele tomou partido da vida.

Este ano nos desafia a fazer diferente também na política. A romper com a indiferença travestida de prudência, com o discurso que iguala opressores e oprimidos, com a ideia de que “tanto faz”. Não faz. As escolhas importam. Importam quem governa, para quem governa e a serviço de quais interesses.

Coragem será necessária para defender o que é público, para afirmar que direitos não são favores, para sustentar que ninguém é descartável. Coragem para dizer que democracia se constrói com participação, não com ódio; com diálogo, não com armas; com políticas que cuidam, não com discursos que ferem.

As eleições não se definem por si só. Não se tratam apenas de um rito formal, mas de um chamado à responsabilidade histórica. Votar é um gesto político, mas também ético. É decidir de que lado da história queremos estar: se ao lado da vida concreta do povo ou dos privilégios de poucos; se ao lado da esperança organizada ou do medo manipulado.

Sonhar com um Brasil mais justo, solidário e fraterno não é utopia vazia. É herança de lutas, de sangue, de suor e de fé. É afirmar que o pão deve ser repartido, que a terra deve cumprir sua função social, que a economia deve servir à vida e que o Estado não pode abandonar os mais pobres. “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mateus 25,40).

Que possamos estar atentos, críticos e comprometidos. Que nossa fé não se feche nos templos, mas caminhe pelas ruas. Que nossa esperança não seja ingênua, mas organizada. E que nossa ação política seja expressão do amor que o Evangelho exige: um amor que incomoda, que confronta e que transforma.

Porque este ano será decisivo. E a história — como sempre — será escrita pelas escolhas que fizermos, individualmente e como povo. Que saibamos escolher a vida, a justiça e o futuro.

Leonardo J. D. Campos

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O chão da cultura no Grande ABC

Quero retomar o importante dia onze de janeiro de 2026, quando, como tantos brasileiros, acompanhei a notícia de que o filme O Agente Secreto, um longa-metragem nacional, havia sido premiado no Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Não Inglesa, além do reconhecimento de Wagner Moura como Melhor Ator em Filme de Drama. Trata-se de um fato que deve ser celebrado não apenas como prestígio internacional, mas como afirmação de valores e de um projeto de país, uma conquista que dialoga diretamente com quem faz cultura todos os dias, longe dos holofotes — é justamente daí que nascem as grandes obras que o mundo passa a enxergar.

Partindo desta ótica, me volto ao ABC paulista, um território onde a cultura nunca foi luxo. Aqui, a arte sempre esteve ligada à sobrevivência. Conheço músicos que atravessam a cidade após um dia inteiro de trabalho; escritores que escrevem de madrugada; poetas que bancam a própria publicação; artistas que improvisam ateliês em casa; atores que ensaiam sem saber se haverá público ou cachê. É nesse cotidiano silencioso que a cultura resiste e se reinventa.

Quando um filme brasileiro ganha o mundo, ele não nasce do nada, mas do esforço, da precariedade e da persistência que começam nos bairros, nas periferias, nos coletivos culturais, nos espaços comunitários e nos editais disputados com enorme dificuldade.

Vale lembrar que o Brasil viveu, não há muito tempo, um período marcado por ataques deliberados à cultura. A arte foi tratada como inimiga, o artista como suspeito e o investimento cultural como desperdício. Esse discurso desceu para as cidades, atingiu o ABC, fechou espaços, interrompeu projetos e empurrou muitos profissionais para a informalidade. O empobrecimento gerado ali foi também simbólico e coletivo, e seus efeitos ainda são sentidos.

Por isso, é fundamental reafirmar: cultura é trabalho, é direito e é política pública. Não existe cinema premiado sem Estado presente, assim como não existe cultura viva sem territórios fortalecidos. O ABC tem talentos suficientes para ocupar palcos, telas e feiras em qualquer lugar do mundo. O que falta não é criatividade, é prioridade política.

Celebrar um prêmio internacional só faz sentido quando ele se transforma em acesso, orçamento, continuidade e dignidade para quem faz arte no cotidiano. É justo comemorar quando o mundo aplaude o cinema brasileiro, mas a vitória só se completa quando esse reconhecimento chega aqui dentro como política pública. Sem isso, o aplauso é distante; com isso, vira sustento, pertencimento e futuro.

Leonardo J. D. Campos

Artigo publicado no Diário do Grande ABC, em 22 de janeiro de 2026, no caderno Opinião, página 2.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Dia do Mártir São Sebastião

O dia de São Sebastião, celebrado em 20 de janeiro, não é apenas uma data do calendário religioso. Para muitas comunidades, especialmente na Zona da Mata Mineira onde a devoção ao santo se enraíza e se expressa de forma intensa por meio da Folia de São Sebastião, assim como em lugares como Rio Grande da Serra, onde a devoção se materializa na própria vida paroquial dedicada ao santo, trata-se de um tempo próprio, carregado de memória, organização coletiva e sentido comunitário. É o dia em que a fé sai de casa, ganha estrada e se transforma em encontro — um movimento que se repete em tantas outras comunidades espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, onde São Sebastião segue sendo referência de proteção, resistência e cuidado com a vida.

Em Minas Gerais, a Folia de São Sebastião é uma tradição viva, reconhecida e profundamente familiar. Não nasce de eventos oficiais nem de agendas institucionais, mas do compromisso assumido entre gerações. Mestres de folia, guardiões das bandeiras, violeiros, cantadores, bandeireiros e cozinheiras formam uma rede que se organiza, não por obrigação, mas por pertencimento. Cada um sabe seu lugar, sua função e sua responsabilidade. Nada é improvisado, porque tudo é partilhado.

A bandeira de São Sebastião é o centro desse movimento. Ela não é adorno nem símbolo distante: é presença. Ao entrar nas casas, carrega pedido, agradecimento, promessa e proteção. Quem recebe a folia não é espectador, é parte do rito. Abre a porta, oferece café, comida, pouso, escuta os cantos, reza junto. A fé acontece ali, no cotidiano, sem separação entre o sagrado e a vida concreta.

Os cantos da folia não falam de um santo distante ou idealizado. Falam de cuidado, de trabalho, de saúde, de proteção contra a fome, a peste, a doença e a violência. Falam da terra, da família e do esforço diário. É uma espiritualidade que reconhece a dureza da vida, mas insiste na dignidade. Não promete fuga do mundo, mas força para permanecer nele.

Essa devoção não se sustenta no abstrato. Ela se mantém porque foi cuidada por pessoas concretas, muitas delas já falecidas, que assumiram, em seu tempo, a responsabilidade de preservar a folia e transmiti-la como herança viva. Cada geração recebeu essa tradição, cuidou dela à sua maneira, a entregou à seguinte e, por conta disso, permanece. 

Registro aqui alguns nomes que marcaram essa caminhada e contribuíram diretamente para a continuidade dessa expressão de fé: minha avó Elvira Dutra Medina; meu pai, Pedro; minha mãe, Maria; meus tios paternos Minerval, Adolfo e José; meus tios maternos João, Astolfo, Maurício e Sebastião; meus irmãos Vicente e Camilo; meus primos (tantos que nem consigo enumerar), além de muitos amigos e amigas que, ao longo dos anos, mantiveram e mantêm viva essa prática, garantindo que ela continue caminhando no tempo.

Há, nessa tradição, uma pedagogia silenciosa. A folia ensina que a fé se constrói em comunidade, que ninguém caminha sozinho e que a memória precisa ser cuidada para não se perder. Ensina também que organização não é privilégio do Estado ou das instituições formais. O povo sabe se organizar, distribuir tarefas, resolver conflitos e sustentar o que considera essencial.

São Sebastião, nesse contexto, não aparece apenas como mártir de um passado distante, mas como referência de resistência. Não pela dor, mas pela firmeza. A devoção não exalta o sofrimento, mas a fidelidade à vida, mesmo quando ela é atravessada por injustiças e dificuldades. O santo permanece popular porque sua história dialoga com a experiência de quem precisa resistir todos os dias.

Celebrar São Sebastião, assim, é mais do que cumprir um rito religioso. É reafirmar valores: partilha, cuidado, compromisso coletivo, memória viva. É reconhecer que a fé, quando enraizada no chão do povo, produz laços, organiza comunidades e sustenta esperanças concretas.

Num tempo em que a religião muitas vezes é usada para dividir, excluir ou explorar, a Folia de São Sebastião aponta outro caminho. Um caminho antigo, simples e profundamente atual: aquele em que a fé não se impõe, mas visita; não domina, mas serve; não promete privilégios, mas constrói comunhão.

O dia 20 de janeiro, na Zona da Mata Mineira e em tantos outros lugares, não termina quando a folia se despede. Ele permanece nos vínculos que se reforçam, nas histórias que continuam sendo contadas e na certeza silenciosa de que, enquanto houver gente disposta a caminhar junto, a fé seguirá tendo rosto, voz e endereço.

Leonardo J. D. Campos

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Quando a fé se torna ação prática



A morte de um padre de 103 anos, ocorrida na última sexta-feira (09/01/2026), no Rio de Janeiro, durante a oração da Ave-Maria, dentro da igreja e no coração da comunidade, é um acontecimento que permite uma leitura que vai além do aspecto religioso ou da cena comovente que, de fato, é. Trata-se também de um acontecimento político no sentido mais profundo da palavra: aquele que diz respeito à forma como escolhemos viver, cuidar uns dos outros e dar sentido à vida pública.

Não é irrelevante que seu último gesto tenha sido uma Ave-Maria. Maria, no Evangelho, é aquela que diz “façam o que Ele disser”, que guarda tudo no coração, que aceita o chamado dizendo “faça-se em mim segundo a tua palavra”. Rezar a Ave-Maria, nesse contexto, não é fuga do mundo — é reafirmação de uma fé que escuta, acolhe e se traduz em obediência concreta à vida.

É a partir dessa imagem — uma vida que começa e termina dizendo “sim” — que a pergunta se impõe com ainda mais força: a quem serve a nossa fé hoje? Ao mercado e à vaidade? À legitimação do autoritarismo? Ou à dignidade humana, sobretudo quando ela se apresenta frágil, pobre e invisibilizada?

A trajetória desse padre — marcada pela permanência, pela simplicidade e pelo compromisso com a memória, com os pobres e com a comunidade — revela algo essencial: fé que não se traduz em compromisso social é fé esvaziada. E compromisso social, gostemos ou não, é sempre político. É escolher estar ao lado da vida e não da exclusão. É optar pela justiça em vez da indiferença. É defender a memória histórica quando tantos preferem o esquecimento conveniente.

Há uma força simbólica enorme em alguém que atravessa mais de um século sem abandonar sua missão. Em um mundo onde tudo se tornou descartável — pessoas, direitos, histórias — essa fidelidade é um gesto de resistência. Resistência à lógica do lucro acima da vida. À banalização da morte. À transformação da fé em espetáculo ou arma ideológica.

Talvez por isso essa morte tenha atravessado fronteiras e ganhado manchetes internacionais. Não foi apenas o fato em si, mas o testemunho. Um testemunho que grita, mesmo em silêncio: outra forma de viver é possível. E, por consequência, outra política é necessária — uma política que tenha alma, ética e compromisso com o bem comum.

No fim, a morte desse padre não encerra uma história — ela me interpela. Ela me obriga a perguntar que tipo de fé eu estou vivendo, que tipo de compromisso estou sustentando e a quem minhas escolhas servem todos os dias. Diante de uma vida que começa e termina em oração — na oração daquela que ensinou a fé a virar gesto — não cabe neutralidade. Ou a fé se transforma em cuidado concreto, justiça e defesa da vida, ou ela se torna ruído vazio. Eu sigo acreditando que fé, quando é verdadeira, não foge do mundo: ela se compromete com ele — e, por isso mesmo, segue sendo um ato profundamente político.

Padre José Luciano Jacques Penido, presente!

Leonardo J. D. Campos

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Quando a fé vira alvo

Os dados divulgados pelo Painel do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, e repercutidos pelo Diário do Grande ABC (DGABC, quarta-feira, 7 de janeiro de 2026, caderno Setecidades, p. 3), informam que a região registrou um aumento de 6% nas denúncias de intolerância religiosa em 2025. Foram 35 ocorrências até 25 de dezembro, contra 33 no mesmo período do ano anterior. À primeira vista, alguém pode tratar isso como uma oscilação estatística. Eu não consigo.

Não consigo porque, por trás de cada número, existe uma pessoa constrangida. Um corpo violentado simbolicamente. Uma fé interrompida no meio do canto, do toque do atabaque, da oração ou até do silêncio sagrado. Intolerância religiosa não é abstração acadêmica: é medo concreto. É gente que passa a medir o volume da própria crença para não incomodar quem nunca se incomodou em respeitar.

A matéria publicada pelo DGABC lembra que o Dia Nacional da Liberdade de Cultos, celebrado em 7 de janeiro, nasce de um decreto de 1890 que prometia garantir direitos a todas as religiões. Esse princípio foi reafirmado pela Constituição Federal de 1988, que assegura a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença e a proteção aos locais de culto e às suas liturgias. No papel, o direito existe. Na vida real, ele segue sendo violado — todos os dias.

No plano local, Santo André avançou ao instituir a Lei Ordinária nº 10.348, de 19 de novembro de 2020, de autoria do então vereador Alemão Duarte, que criou o Dia Municipal de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 20 de agosto. Não se trata apenas de um marco simbólico. A lei afirma objetivos claros: fortalecer a democracia, respeitar a diversidade religiosa, incentivar o diálogo entre diferentes crenças e construir uma cultura de paz fundada na justiça social e na defesa da vida. A escolha da data homenageia Quitéria Vieira, referência da Umbanda, falecida em 20 de agosto de 1989 — um gesto que reconhece, ainda que tardiamente, a dor histórica imposta às religiões de matrizes africanas.

Ainda assim, os dados mostram que seguimos falhando. O pesquisador Marco Brito, doutor em Ciências da Religião, aponta que parte do aumento das denúncias decorre do maior acesso aos canais de registro e do reconhecimento de direitos. É verdade. Mas isso não consola. Pelo contrário: escancara o quanto essas violências sempre existiram e foram naturalizadas, silenciadas, empurradas para fora do debate público.

As religiões de matrizes africanas continuam sendo as principais vítimas. A fala de Mãe Fran, liderança do candomblé em São Bernardo, é um retrato duro dessa realidade: denúncias recorrentes, ameaças, episódios de truculência policial e a recusa em reconhecer o caráter religioso de suas celebrações. Não é perturbação do sossego. É racismo religioso — herança direta de um país que demonizou a fé negra para justificar a escravidão e nunca encarou esse passado com a seriedade necessária.

Quando até uma pessoa católica aparece entre as vítimas, o dado não relativiza o problema. Ele amplia o alerta. Mostra que a intolerância cresce em ambientes de polarização, ódio ao diferente e empobrecimento do diálogo público. Hoje é contra o terreiro. Amanhã será contra qualquer expressão de fé que não se curve ao padrão dominante.

Liberdade religiosa não é favor, nem concessão. É direito humano fundamental. Mas direito só se sustenta quando vira prática social, política pública e postura cotidiana. Enquanto alguém precisar negociar sua fé com o vizinho, com o Estado ou com a polícia, essa liberdade seguirá incompleta.

Escrevo a partir de um lugar claro — humano e político. Minha indignação não é neutra, nem acadêmica. Ela nasce da vivência comunitária, do diálogo inter-religioso e da convicção de que a fé, qualquer fé, só faz sentido quando promove vida, dignidade e encontro. Defender a liberdade de cultos não é defender uma religião específica. É defender o direito de existir sem medo.

Que os dados não sirvam de anestesia. Que leis como a de Santo André não fiquem restritas ao calendário oficial. E que o combate à intolerância religiosa deixe de ser discurso para se tornar compromisso real. Porque intolerância não é estatística. É ferida. E ferida aberta exige cuidado, coragem e ação.

Leonardo J. D. Campos

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O pão que o capitalismo não explica

Voltei para casa com o corpo cansado e o pensamento desperto. Eu e meu irmão passamos o dia inteiro levantando um muro de blocos tipo baiano que havia desabado depois dos ventos fortes que castigaram Santo André. Na periferia, quando algo cai, não se espera. A resposta vem do braço estendido, do mutirão improvisado, da solidariedade que antecede qualquer política pública.

No caminho de volta, minha filha mais nova vinha comigo. Já perto de casa, ao passar em frente à padaria do bairro, pedi que ela entrasse e comprasse dez pães. Em casa, algumas amigas da família se reuniam. Nada sofisticado: pão, vinho, conversa e presença. O essencial que sustenta a vida quando quase tudo falta.

Minha filha fez o pedido e ouviu do dono da padaria, com a naturalidade de quem conhece a rua: — Sua irmã mais velha já passou aqui agora há pouco e levou pão.

Essa frase simples carrega uma escolha. Ali, o centro não era a venda. O lucro não comandava o gesto. O que estava em jogo era a relação. Ele sabia quem éramos. Sabia quem eram nossas filhas. Sabia de nossos passos. Não havia ali a frieza do caixa, mas a memória do convívio.

Na lógica dominante, seria diferente. Sem relação, o importante é vender. Pouco importa se alguém da mesma casa já comprou, pouco importa se o pão vai sobrar ou faltar. Pessoas viram clientes, encontros viram transações e o pão vira apenas mercadoria. Quando tudo vira mercadoria, a vida perde densidade, o rosto perde nome e a cidade perde alma.

Na comunidade, o pão ainda guarda outro sentido. Ele não é só produto — é partilha. Não é só consumo — é cuidado. O balcão não separa; aproxima. A padaria vira extensão da casa, e a rua, espaço de pertencimento. Ali, repartir vale mais que acumular, e conhecer vale mais que lucrar.

Este fato me fez lembrar de Jesus que sempre caminhou por lugares assim. Sentou-se à mesa com gente comum, repartiu o pão e o vinho, reconheceu rostos antes de contar moedas. Nunca perguntou quem podia pagar, mas quem tinha fome. Nunca fez da fé um negócio, nem da vida uma mercadoria. Seu gesto era simples e, por isso mesmo, profundamente subversivo.

Talvez o padeiro nem tenha se dado conta, mas naquele instante ele repetiu esse gesto. Ao não vender mais dez pães, afirmou — sem discurso — que a vida vale mais que o lucro, que a relação vale mais que a transação, que o cuidado vale mais que o acúmulo. Isso é política em estado puro, feita sem palanque e sem microfone.

Nos grandes centros, uma cena assim soa improvável. A cidade moldada pelo capital precisa do anonimato, da pressa e da indiferença. Transforma ruas em corredores, pessoas em números e vínculos em obstáculos. Comunidade atrapalha. Relação incomoda. Humanidade dá prejuízo.

Naquele dia, não deixamos de comprar pão. Ganhamos consciência. Entendemos que a salvação não mora fora da vida, nem depois dela. Ela se constrói quando o pão e o vinho deixam de ser mercadoria e voltam a ser sinal. Quando a cidade recusa ser apenas mercado e reaprende a ser casa.

E enquanto ainda existirem lugares onde o padeiro conhece nossas filhas pelo nome, o projeto da indiferença não se completa. Porque vínculo não é atraso — é enfrentamento.

Leonardo J. D. Campos