
A morte de um padre de 103 anos, ocorrida na última sexta-feira (09/01/2026), no Rio de Janeiro, durante a oração da Ave-Maria, dentro da igreja e no coração da comunidade, é um acontecimento que permite uma leitura que vai além do aspecto religioso ou da cena comovente que, de fato, é. Trata-se também de um acontecimento político no sentido mais profundo da palavra: aquele que diz respeito à forma como escolhemos viver, cuidar uns dos outros e dar sentido à vida pública.
Não é irrelevante que seu último gesto tenha sido uma Ave-Maria. Maria, no Evangelho, é aquela que diz “façam o que Ele disser”, que guarda tudo no coração, que aceita o chamado dizendo “faça-se em mim segundo a tua palavra”. Rezar a Ave-Maria, nesse contexto, não é fuga do mundo — é reafirmação de uma fé que escuta, acolhe e se traduz em obediência concreta à vida.
É a partir dessa imagem — uma vida que começa e termina dizendo “sim” — que a pergunta se impõe com ainda mais força: a quem serve a nossa fé hoje? Ao mercado e à vaidade? À legitimação do autoritarismo? Ou à dignidade humana, sobretudo quando ela se apresenta frágil, pobre e invisibilizada?
A trajetória desse padre — marcada pela permanência, pela simplicidade e pelo compromisso com a memória, com os pobres e com a comunidade — revela algo essencial: fé que não se traduz em compromisso social é fé esvaziada. E compromisso social, gostemos ou não, é sempre político. É escolher estar ao lado da vida e não da exclusão. É optar pela justiça em vez da indiferença. É defender a memória histórica quando tantos preferem o esquecimento conveniente.
Há uma força simbólica enorme em alguém que atravessa mais de um século sem abandonar sua missão. Em um mundo onde tudo se tornou descartável — pessoas, direitos, histórias — essa fidelidade é um gesto de resistência. Resistência à lógica do lucro acima da vida. À banalização da morte. À transformação da fé em espetáculo ou arma ideológica.
Talvez por isso essa morte tenha atravessado fronteiras e ganhado manchetes internacionais. Não foi apenas o fato em si, mas o testemunho. Um testemunho que grita, mesmo em silêncio: outra forma de viver é possível. E, por consequência, outra política é necessária — uma política que tenha alma, ética e compromisso com o bem comum.
No fim, a morte desse padre não encerra uma história — ela me interpela. Ela me obriga a perguntar que tipo de fé eu estou vivendo, que tipo de compromisso estou sustentando e a quem minhas escolhas servem todos os dias. Diante de uma vida que começa e termina em oração — na oração daquela que ensinou a fé a virar gesto — não cabe neutralidade. Ou a fé se transforma em cuidado concreto, justiça e defesa da vida, ou ela se torna ruído vazio. Eu sigo acreditando que fé, quando é verdadeira, não foge do mundo: ela se compromete com ele — e, por isso mesmo, segue sendo um ato profundamente político.
Padre José Luciano Jacques Penido, presente!
Leonardo J. D. Campos
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