terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Dia do Mártir São Sebastião

O dia de São Sebastião, celebrado em 20 de janeiro, não é apenas uma data do calendário religioso. Para muitas comunidades, especialmente na Zona da Mata Mineira onde a devoção ao santo se enraíza e se expressa de forma intensa por meio da Folia de São Sebastião, assim como em lugares como Rio Grande da Serra, onde a devoção se materializa na própria vida paroquial dedicada ao santo, trata-se de um tempo próprio, carregado de memória, organização coletiva e sentido comunitário. É o dia em que a fé sai de casa, ganha estrada e se transforma em encontro — um movimento que se repete em tantas outras comunidades espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, onde São Sebastião segue sendo referência de proteção, resistência e cuidado com a vida.

Em Minas Gerais, a Folia de São Sebastião é uma tradição viva, reconhecida e profundamente familiar. Não nasce de eventos oficiais nem de agendas institucionais, mas do compromisso assumido entre gerações. Mestres de folia, guardiões das bandeiras, violeiros, cantadores, bandeireiros e cozinheiras formam uma rede que se organiza, não por obrigação, mas por pertencimento. Cada um sabe seu lugar, sua função e sua responsabilidade. Nada é improvisado, porque tudo é partilhado.

A bandeira de São Sebastião é o centro desse movimento. Ela não é adorno nem símbolo distante: é presença. Ao entrar nas casas, carrega pedido, agradecimento, promessa e proteção. Quem recebe a folia não é espectador, é parte do rito. Abre a porta, oferece café, comida, pouso, escuta os cantos, reza junto. A fé acontece ali, no cotidiano, sem separação entre o sagrado e a vida concreta.

Os cantos da folia não falam de um santo distante ou idealizado. Falam de cuidado, de trabalho, de saúde, de proteção contra a fome, a peste, a doença e a violência. Falam da terra, da família e do esforço diário. É uma espiritualidade que reconhece a dureza da vida, mas insiste na dignidade. Não promete fuga do mundo, mas força para permanecer nele.

Essa devoção não se sustenta no abstrato. Ela se mantém porque foi cuidada por pessoas concretas, muitas delas já falecidas, que assumiram, em seu tempo, a responsabilidade de preservar a folia e transmiti-la como herança viva. Cada geração recebeu essa tradição, cuidou dela à sua maneira, a entregou à seguinte e, por conta disso, permanece. 

Registro aqui alguns nomes que marcaram essa caminhada e contribuíram diretamente para a continuidade dessa expressão de fé: minha avó Elvira Dutra Medina; meu pai, Pedro; minha mãe, Maria; meus tios paternos Minerval, Adolfo e José; meus tios maternos João, Astolfo, Maurício e Sebastião; meus irmãos Vicente e Camilo; meus primos (tantos que nem consigo enumerar), além de muitos amigos e amigas que, ao longo dos anos, mantiveram e mantêm viva essa prática, garantindo que ela continue caminhando no tempo.

Há, nessa tradição, uma pedagogia silenciosa. A folia ensina que a fé se constrói em comunidade, que ninguém caminha sozinho e que a memória precisa ser cuidada para não se perder. Ensina também que organização não é privilégio do Estado ou das instituições formais. O povo sabe se organizar, distribuir tarefas, resolver conflitos e sustentar o que considera essencial.

São Sebastião, nesse contexto, não aparece apenas como mártir de um passado distante, mas como referência de resistência. Não pela dor, mas pela firmeza. A devoção não exalta o sofrimento, mas a fidelidade à vida, mesmo quando ela é atravessada por injustiças e dificuldades. O santo permanece popular porque sua história dialoga com a experiência de quem precisa resistir todos os dias.

Celebrar São Sebastião, assim, é mais do que cumprir um rito religioso. É reafirmar valores: partilha, cuidado, compromisso coletivo, memória viva. É reconhecer que a fé, quando enraizada no chão do povo, produz laços, organiza comunidades e sustenta esperanças concretas.

Num tempo em que a religião muitas vezes é usada para dividir, excluir ou explorar, a Folia de São Sebastião aponta outro caminho. Um caminho antigo, simples e profundamente atual: aquele em que a fé não se impõe, mas visita; não domina, mas serve; não promete privilégios, mas constrói comunhão.

O dia 20 de janeiro, na Zona da Mata Mineira e em tantos outros lugares, não termina quando a folia se despede. Ele permanece nos vínculos que se reforçam, nas histórias que continuam sendo contadas e na certeza silenciosa de que, enquanto houver gente disposta a caminhar junto, a fé seguirá tendo rosto, voz e endereço.

Leonardo J. D. Campos

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