quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O chão da cultura no Grande ABC

Quero retomar o importante dia onze de janeiro de 2026, quando, como tantos brasileiros, acompanhei a notícia de que o filme O Agente Secreto, um longa-metragem nacional, havia sido premiado no Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Não Inglesa, além do reconhecimento de Wagner Moura como Melhor Ator em Filme de Drama. Trata-se de um fato que deve ser celebrado não apenas como prestígio internacional, mas como afirmação de valores e de um projeto de país, uma conquista que dialoga diretamente com quem faz cultura todos os dias, longe dos holofotes — é justamente daí que nascem as grandes obras que o mundo passa a enxergar.

Partindo desta ótica, me volto ao ABC paulista, um território onde a cultura nunca foi luxo. Aqui, a arte sempre esteve ligada à sobrevivência. Conheço músicos que atravessam a cidade após um dia inteiro de trabalho; escritores que escrevem de madrugada; poetas que bancam a própria publicação; artistas que improvisam ateliês em casa; atores que ensaiam sem saber se haverá público ou cachê. É nesse cotidiano silencioso que a cultura resiste e se reinventa.

Quando um filme brasileiro ganha o mundo, ele não nasce do nada, mas do esforço, da precariedade e da persistência que começam nos bairros, nas periferias, nos coletivos culturais, nos espaços comunitários e nos editais disputados com enorme dificuldade.

Vale lembrar que o Brasil viveu, não há muito tempo, um período marcado por ataques deliberados à cultura. A arte foi tratada como inimiga, o artista como suspeito e o investimento cultural como desperdício. Esse discurso desceu para as cidades, atingiu o ABC, fechou espaços, interrompeu projetos e empurrou muitos profissionais para a informalidade. O empobrecimento gerado ali foi também simbólico e coletivo, e seus efeitos ainda são sentidos.

Por isso, é fundamental reafirmar: cultura é trabalho, é direito e é política pública. Não existe cinema premiado sem Estado presente, assim como não existe cultura viva sem territórios fortalecidos. O ABC tem talentos suficientes para ocupar palcos, telas e feiras em qualquer lugar do mundo. O que falta não é criatividade, é prioridade política.

Celebrar um prêmio internacional só faz sentido quando ele se transforma em acesso, orçamento, continuidade e dignidade para quem faz arte no cotidiano. É justo comemorar quando o mundo aplaude o cinema brasileiro, mas a vitória só se completa quando esse reconhecimento chega aqui dentro como política pública. Sem isso, o aplauso é distante; com isso, vira sustento, pertencimento e futuro.

Leonardo J. D. Campos

Artigo publicado no Diário do Grande ABC, em 22 de janeiro de 2026, no caderno Opinião, página 2.

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