Era pouco depois das oito da manhã. O relógio marcava justamente aquele horário em que a cidade parece disputar uma corrida contra si mesma. Eu seguia por uma das avenidas mais movimentadas de Santo André, acompanhando o fluxo intenso de carros que avançavam em direção à região central. Motores acelerados, semáforos, buzinas, motocicletas costurando entre os veículos, ônibus lotados. Cada pessoa parecia carregar uma urgência particular.
Foi então que meus olhos se desviaram da pista.
Sobre a calçada, dois cães de pelagem clara estavam deitados lado a lado. Não brincavam, não latiam, não disputavam espaço. Apenas observavam. Olhavam o movimento dos carros com uma serenidade desconcertante, como quem assiste a um espetáculo do qual não faz questão de participar.
Pareciam completamente alheios à pressa que dominava a cidade.
A cena me fez diminuir a velocidade dos pensamentos.
Enquanto milhares de pessoas corriam para cumprir horários, bater ponto, chegar a reuniões, resolver problemas ou simplesmente sobreviver a mais um dia, aqueles dois animais permaneciam ali, donos de um tempo que nós, humanos, parecemos ter perdido há muito.
Fiquei imaginando o que viam.
Talvez enxergassem apenas uma sucessão de máquinas passando. Talvez não compreendessem por que tanta gente corre. Ou talvez compreendessem mais do que nós. Afinal, quem decidiu que viver precisa ser uma corrida permanente?
O contraste era quase poético.
De um lado, uma avenida pulsando ansiedade, prazos e compromissos. Do outro, dois cães oferecendo, sem saber, uma silenciosa aula sobre contemplação. Não havia neles qualquer sinal de preocupação com o próximo minuto. Existia apenas o instante presente.
Nós, ao contrário, estamos quase sempre ausentes do agora. O corpo segue dirigindo, andando ou trabalhando, enquanto a cabeça já está na próxima reunião, na conta que vence amanhã, na mensagem que ainda precisa ser respondida ou no problema que talvez nem aconteça.
Corremos tanto que deixamos de perceber cenas como aquela.
Talvez por isso ela tenha me tocado tanto.
Não porque dois cães estivessem deitados numa calçada, mas porque, por alguns segundos, eles pareciam ser os únicos habitantes daquela avenida que realmente estavam vivendo aquele momento.
Às vezes, a cidade ensina. Não pelas placas, nem pelos prédios, muito menos pelo trânsito. Ensina pelos encontros inesperados. E, naquela manhã, foram dois cães anônimos que me lembraram de algo que insistimos em esquecer: a vida não acontece apenas no destino. Ela acontece, sobretudo, no caminho.
Leonardo J. D. Campos

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