quinta-feira, 30 de abril de 2026

O lado da história


Tem algo que o tempo me ensinou — não de uma vez, mas no cansaço das horas, na vida acontecendo sem aviso. Quando a gente abre o livro da história, quase nunca encontra uma versão única. O que pulsa ali são disputas; narrativas que se enfrentam, cada qual defendendo o seu quadrado ou os seus privilégios. E eu fui entendendo, aos poucos, que assumir um posicionamento não é luxo — é quase uma obrigação se quisermos, de fato, pertencer a algum lugar nesta vastidão de mundo em que vivemos.

Essa consciência não veio pronta para mim. Foi sendo moldada no dia a dia, nas conversas simples — muitas vezes na calçada, no portão, no fim de tarde —, nas dores que não saem nos noticiários e nas dúvidas que insistem em visitar a madrugada. É uma construção feita nos desencontros que nos obrigam a enxergar o que a pressa tenta esconder: a verdade das dificuldades diárias, o toque áspero dos pés descalços nos atalhos da vida e o silêncio doído de um prato vazio que, às vezes, fala mais alto que qualquer discurso.

É nesse ponto que a pergunta se torna inevitável — e, confesso, já me pegou mais de uma vez: de que lado estamos?

Pergunto isso porque ainda me causa espanto ouvir tanta gente dizer que é cristã enquanto defende a pena de morte, a ditadura ou a tortura. Que cristianismo é esse? Parece contraditório quando olhamos para o que, na prática, significa seguir Jesus Cristo. Será que já nos demos conta de que segui-lo é, na essência, seguir um prisioneiro? Um homem que foi perseguido, torturado e condenado à morte pelo sistema político da sua época?

Seguir a Jesus Cristo é, portanto, assumir um lado na sociedade. E eu fui compreendendo isso na caminhada. É escolher defender a vida, a justiça e a promessa de “que todos tenham vida e a tenham em abundância”. É colocar-se, sem hesitação, "na fileira dos oprimidos" e não se calar diante das injustiças que trituram o próximo. É entender que o “amar uns aos outros” não aceita notas de rodapé: é um amor que não pergunta antes de acolher, que não seleciona quem merece.

Assumir essa coerência não é tarefa fácil — eu sei disso na pele. E custa caro. No Brasil de hoje, marcado por uma polarização que atravessa até as relações mais simples, essa postura incomoda. As pessoas já não se escutam como antes. Aqueles encontros na praça, no fim da tarde, para “jogar conversa fora” e deixar o tempo passar, parecem coisa de outro tempo — quase uma lembrança distante de quando o diálogo ainda tinha morada.

Essa disseminação de rancor me inquieta profundamente, mas não me permite a indiferença. É justamente nesse cenário que encontro meu prumo ao escolher ser discípulo de Jesus Cristo. Não o Cristo distante, intocável, mas Aquele que nasceu na pobreza de uma manjedoura porque não havia lugar para Ele nas hospedarias do sistema. Sigo aquele que gastou a sola do pé na poeira, que olhou nos olhos dos invisíveis e que ousou sentar à mesa com quem o mundo já tinha descartado — e, sendo sincero, é esse jeito que me desafia todos os dias.

Na crueza dos fatos, ser discípulo é entender a trajetória de um prisioneiro político que incomodou o status quo ao denunciar a hipocrisia das leis que pesam sobre os pequenos enquanto protegem os grandes. Ele mexeu nas estruturas e pagou o preço mais alto, sendo fiel até o último suspiro à urgência da vida que pregava. E é essa mesma urgência que, muitas vezes, me tira do conforto e me coloca de pé na lida da comunidade — seja nas missas aos domingos, nas reuniões da associação, na escrita que resgata a memória local ou na luta contra a burocracia que insiste em apagar vozes.

Escolher esse caminho não é romantizar a dor — é assumir o compromisso de não fugir dela quando ela revela injustiça. Ainda assim, eu escolho acreditar. Escolho não deixar o coração endurecer enquanto as praças permanecem vazias de diálogo. Escolho tentar, todos os dias, ser minimamente coerente com o que escrevo e com o que digo professar — mesmo sabendo que nem sempre consigo.

Porque, no fim das contas, a gente não escolhe apenas uma versão da história para observar de longe. A gente escolhe o tipo de história que quer ajudar a construir com as próprias mãos.

Leonardo J. D. Campos

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A luz que não se esconde

Muitas coisas marcaram minha infância. Algumas são duras de revisitar. Outras, no entanto, permanecem como um abrigo dentro da memória — daquelas que aquecem o coração e continuam ensinando, mesmo depois de tantos anos.

Uma dessas lembranças me leva às noites quentes do verão mineiro, lá em Piacatuba. Eu saía com meu pai pelo pasto do sítio onde morávamos, carregando um vidro nas mãos. Nossa missão era simples e mágica: procurar vaga-lumes.

Corria atrás daquelas pequenas luzes vivas com um encantamento difícil de explicar. Quando conseguia capturar alguns — dez, quinze, talvez — colocava-os dentro do vidro com todo cuidado. Depois, levava aquele pequeno universo luminoso para o quarto e o acomodava acima do berço onde dormia. Era a minha “luz elétrica”.

E que luz.

Numa casa simples, de pau a pique, onde não havia energia elétrica e a lamparina a querosene era o recurso possível, aqueles vaga-lumes iluminavam mais do que o ambiente. Iluminavam a imaginação, o sentimento, os sonhos, a própria infância.

Hoje, olhando para esse tempo, me pergunto se, de alguma forma, não perdemos a capacidade de enxergar essas pequenas luzes.

Vivemos cercados de tecnologia, de telas brilhantes, de uma iluminação que nunca se apaga — mas, curiosamente, parece que tudo anda mais escuro. Temos luz em excesso, mas falta brilho. Falta encantamento.

E talvez falte também sentido.

Porque, no fundo, a vida sempre nos chamou a ser mais do que consumidores de luz. Sempre nos chamou a sermos luz.

Pensando nisso, me fez lembrar das palavras de Jesus, que atravessam o tempo com a mesma força daquelas noites de outrora: “Vocês são a luz do mundo… Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha… Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens…”(Mt. 5, 13-16)

Naquele tempo, eu saía com meu pai em busca de luz para iluminar o quarto. Hoje, percebo que o caminho é outro: não se trata mais de procurar fora, mas de deixar acender por dentro.

Os vaga-lumes que eu guardava no vidro iluminavam a noite por algumas horas. A luz que somos chamados a carregar pode iluminar caminhos inteiros — não pela intensidade, mas pelo sentido.

Talvez o desafio dos nossos dias não seja buscar mais luz — mas reaprender a não escondê-la.

Porque ainda há muita escuridão no mundo e, ainda há, dentro de cada um de nós, uma pequena luz esperando coragem para brilhar, para fazer a diferença e aquilo que for necessário para viver uma vida feliz e de paz.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

O desejo em tempos de tudo pronto

Há uma crise silenciosa atravessando o nosso tempo — e ela não aparece nos indicadores econômicos, nem nos discursos oficiais. Ela se revela em algo mais íntimo: no esvaziamento do desejo.

As pessoas seguem vivendo. Acordam cedo, trabalham, pagam contas, percorrem a cidade, opinam nas redes. Tudo parece em ordem. Mas, no fundo, algo essencial parece ter enfraquecido: a capacidade de desejar de verdade. Não apenas querer o próximo consumo ou a próxima distração, mas desejar o novo, o diferente, aquilo que ainda não existe — e que, por isso mesmo, precisa ser construído.

E isso não acontece por acaso. Vivemos sob uma lógica que organiza a vida para que tudo venha pronto. A comida chega por aplicativo, o entretenimento é infinito e as respostas aparecem antes mesmo das perguntas. O mundo cabe na palma da mão, mas, curiosamente, a vida parece cada vez menor. Há uma espécie de cansaço que não vem só do excesso de tarefas, mas do excesso de estímulos vazios. Tudo é rápido, acessível, imediato e, ao mesmo tempo, raso.

Nesse cenário, o desejo — que exige tempo, espera e construção — vai sendo substituído por impulsos. Pequenas satisfações que aliviam por instantes, mas não preenchem. E, aos poucos, quase sem perceber, a gente desaprende a desejar. Talvez isso fique mais claro quando olhamos para algo simples da vida. Um namoro “das antigas” não começava pronto; havia a paquera, o cuidado no olhar, a conversa que ia ganhando intimidade aos poucos. Depois vinha o pedido, o compromisso assumido, o tempo de conhecer de verdade. O noivado, o casamento... cada etapa com seu sentido, seu tempo, sua construção. Não era só uma sequência de fatos, era um caminho.

E é nesse caminho que o desejo se alimenta. É ali que nascem as expectativas, os sonhos e o sentido de futuro. Porque desejar não é ter — é construir. Isso vale para o amor, mas também vale para a vida.

O que eu quero construir? O que eu quero ser? Qual é o sentido da minha vida? Para onde eu estou indo?

Essas perguntas, que antes atravessaram a juventude e acompanhavam a vida adulta, hoje muitas vezes nem chegam a ser feitas. E, quando aparecem, encontram dificuldade de resposta, porque o mundo foi sendo reduzido ao agora, ao imediato, ao instante seguinte. O depois — quando existe — pouco importa.

Mas essa não é apenas uma questão íntima, é profundamente política. Uma sociedade que não deseja, não se move. Um povo que perde a capacidade de imaginar um futuro diferente torna-se mais tolerante com o que já está dado — mesmo quando esse “dado” é injusto. Afinal, por que lutar por melhores condições de vida, por mais direitos e por dignidade, se a esperança de mudança já não pulsa com a mesma força?

O que se instala, então, não é a ausência de sofrimento, mas o acúmulo dele — um sofrimento que não encontra canal, escuta nem horizonte coletivo. Esse tipo de dor não se transforma em luta; ele se converte em cansaço. E o cansaço, quando se prolonga, acaba se tornando conformismo. É assim que se constrói uma apatia organizada.

Nesse ambiente, até a política se esvazia. Torna-se mais superficial, mais imediata, mais barulhenta — mas cada vez menos transformadora. Discute-se muito, mas muda-se pouco. Talvez porque esteja faltando algo simples e, ao mesmo tempo, essencial: o encontro. Falta tempo para sentar e conversar sem pressa. Falta escuta de verdade. Falta olhar no olho. Falta o espaço onde a palavra não precisa disputar atenção com notificações.

Falta a roda.

A roda de conversa, de música, de poesia, de partilha. Em volta de um violão, de um pandeiro, de um cavaco — ou mesmo de uma mesa simples. Lugares onde a vida não é performada, mas vivida; onde as histórias circulam, onde o silêncio também fala, onde as pessoas se reconhecem e se constroem mutuamente. Pode parecer pouco diante de tantos problemas grandes, mas não é. É nesses espaços que o desejo reaprende a existir, porque o desejo não nasce do excesso nem do imediato, mas da falta, do tempo e da construção compartilhada.

Ele não floresce no isolamento, mas no encontro, naquilo que se constrói entre pessoas que se reconhecem e se escutam. Por isso, retomar o desejo é também um ato político, na medida em que significa recuperar a capacidade de se abrir ao outro, de investir no encontro e de acreditar que a realidade pode ser transformada mesmo quando ela parece dura demais.

Resistir à lógica do “tudo pronto” é, no fundo, defender a própria vida em sua dimensão mais humana, aquela que não se contenta com respostas rápidas, mas insiste em construir sentidos. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja apenas econômico ou institucional, mas existencial: como reacender o desejo em uma sociedade treinada para não desejar?

A resposta não virá pronta — e talvez seja justamente nesse caminho, que precisa ser vivido, partilhado e construído coletivamente, que ainda resida a possibilidade de esperança.

Leonardo Campos