quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Quando a fé se torna ação prática



A morte de um padre de 103 anos, ocorrida na última sexta-feira (09/01/2026), no Rio de Janeiro, durante a oração da Ave-Maria, dentro da igreja e no coração da comunidade, é um acontecimento que permite uma leitura que vai além do aspecto religioso ou da cena comovente que, de fato, é. Trata-se também de um acontecimento político no sentido mais profundo da palavra: aquele que diz respeito à forma como escolhemos viver, cuidar uns dos outros e dar sentido à vida pública.

Não é irrelevante que seu último gesto tenha sido uma Ave-Maria. Maria, no Evangelho, é aquela que diz “façam o que Ele disser”, que guarda tudo no coração, que aceita o chamado dizendo “faça-se em mim segundo a tua palavra”. Rezar a Ave-Maria, nesse contexto, não é fuga do mundo — é reafirmação de uma fé que escuta, acolhe e se traduz em obediência concreta à vida.

É a partir dessa imagem — uma vida que começa e termina dizendo “sim” — que a pergunta se impõe com ainda mais força: a quem serve a nossa fé hoje? Ao mercado e à vaidade? À legitimação do autoritarismo? Ou à dignidade humana, sobretudo quando ela se apresenta frágil, pobre e invisibilizada?

A trajetória desse padre — marcada pela permanência, pela simplicidade e pelo compromisso com a memória, com os pobres e com a comunidade — revela algo essencial: fé que não se traduz em compromisso social é fé esvaziada. E compromisso social, gostemos ou não, é sempre político. É escolher estar ao lado da vida e não da exclusão. É optar pela justiça em vez da indiferença. É defender a memória histórica quando tantos preferem o esquecimento conveniente.

Há uma força simbólica enorme em alguém que atravessa mais de um século sem abandonar sua missão. Em um mundo onde tudo se tornou descartável — pessoas, direitos, histórias — essa fidelidade é um gesto de resistência. Resistência à lógica do lucro acima da vida. À banalização da morte. À transformação da fé em espetáculo ou arma ideológica.

Talvez por isso essa morte tenha atravessado fronteiras e ganhado manchetes internacionais. Não foi apenas o fato em si, mas o testemunho. Um testemunho que grita, mesmo em silêncio: outra forma de viver é possível. E, por consequência, outra política é necessária — uma política que tenha alma, ética e compromisso com o bem comum.

No fim, a morte desse padre não encerra uma história — ela me interpela. Ela me obriga a perguntar que tipo de fé eu estou vivendo, que tipo de compromisso estou sustentando e a quem minhas escolhas servem todos os dias. Diante de uma vida que começa e termina em oração — na oração daquela que ensinou a fé a virar gesto — não cabe neutralidade. Ou a fé se transforma em cuidado concreto, justiça e defesa da vida, ou ela se torna ruído vazio. Eu sigo acreditando que fé, quando é verdadeira, não foge do mundo: ela se compromete com ele — e, por isso mesmo, segue sendo um ato profundamente político.

Padre José Luciano Jacques Penido, presente!

Leonardo J. D. Campos

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Quando a fé vira alvo

Os dados divulgados pelo Painel do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, e repercutidos pelo Diário do Grande ABC (DGABC, quarta-feira, 7 de janeiro de 2026, caderno Setecidades, p. 3), informam que a região registrou um aumento de 6% nas denúncias de intolerância religiosa em 2025. Foram 35 ocorrências até 25 de dezembro, contra 33 no mesmo período do ano anterior. À primeira vista, alguém pode tratar isso como uma oscilação estatística. Eu não consigo.

Não consigo porque, por trás de cada número, existe uma pessoa constrangida. Um corpo violentado simbolicamente. Uma fé interrompida no meio do canto, do toque do atabaque, da oração ou até do silêncio sagrado. Intolerância religiosa não é abstração acadêmica: é medo concreto. É gente que passa a medir o volume da própria crença para não incomodar quem nunca se incomodou em respeitar.

A matéria publicada pelo DGABC lembra que o Dia Nacional da Liberdade de Cultos, celebrado em 7 de janeiro, nasce de um decreto de 1890 que prometia garantir direitos a todas as religiões. Esse princípio foi reafirmado pela Constituição Federal de 1988, que assegura a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença e a proteção aos locais de culto e às suas liturgias. No papel, o direito existe. Na vida real, ele segue sendo violado — todos os dias.

No plano local, Santo André avançou ao instituir a Lei Ordinária nº 10.348, de 19 de novembro de 2020, de autoria do então vereador Alemão Duarte, que criou o Dia Municipal de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 20 de agosto. Não se trata apenas de um marco simbólico. A lei afirma objetivos claros: fortalecer a democracia, respeitar a diversidade religiosa, incentivar o diálogo entre diferentes crenças e construir uma cultura de paz fundada na justiça social e na defesa da vida. A escolha da data homenageia Quitéria Vieira, referência da Umbanda, falecida em 20 de agosto de 1989 — um gesto que reconhece, ainda que tardiamente, a dor histórica imposta às religiões de matrizes africanas.

Ainda assim, os dados mostram que seguimos falhando. O pesquisador Marco Brito, doutor em Ciências da Religião, aponta que parte do aumento das denúncias decorre do maior acesso aos canais de registro e do reconhecimento de direitos. É verdade. Mas isso não consola. Pelo contrário: escancara o quanto essas violências sempre existiram e foram naturalizadas, silenciadas, empurradas para fora do debate público.

As religiões de matrizes africanas continuam sendo as principais vítimas. A fala de Mãe Fran, liderança do candomblé em São Bernardo, é um retrato duro dessa realidade: denúncias recorrentes, ameaças, episódios de truculência policial e a recusa em reconhecer o caráter religioso de suas celebrações. Não é perturbação do sossego. É racismo religioso — herança direta de um país que demonizou a fé negra para justificar a escravidão e nunca encarou esse passado com a seriedade necessária.

Quando até uma pessoa católica aparece entre as vítimas, o dado não relativiza o problema. Ele amplia o alerta. Mostra que a intolerância cresce em ambientes de polarização, ódio ao diferente e empobrecimento do diálogo público. Hoje é contra o terreiro. Amanhã será contra qualquer expressão de fé que não se curve ao padrão dominante.

Liberdade religiosa não é favor, nem concessão. É direito humano fundamental. Mas direito só se sustenta quando vira prática social, política pública e postura cotidiana. Enquanto alguém precisar negociar sua fé com o vizinho, com o Estado ou com a polícia, essa liberdade seguirá incompleta.

Escrevo a partir de um lugar claro — humano e político. Minha indignação não é neutra, nem acadêmica. Ela nasce da vivência comunitária, do diálogo inter-religioso e da convicção de que a fé, qualquer fé, só faz sentido quando promove vida, dignidade e encontro. Defender a liberdade de cultos não é defender uma religião específica. É defender o direito de existir sem medo.

Que os dados não sirvam de anestesia. Que leis como a de Santo André não fiquem restritas ao calendário oficial. E que o combate à intolerância religiosa deixe de ser discurso para se tornar compromisso real. Porque intolerância não é estatística. É ferida. E ferida aberta exige cuidado, coragem e ação.

Leonardo J. D. Campos

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O pão que o capitalismo não explica

Voltei para casa com o corpo cansado e o pensamento desperto. Eu e meu irmão passamos o dia inteiro levantando um muro de blocos tipo baiano que havia desabado depois dos ventos fortes que castigaram Santo André. Na periferia, quando algo cai, não se espera. A resposta vem do braço estendido, do mutirão improvisado, da solidariedade que antecede qualquer política pública.

No caminho de volta, minha filha mais nova vinha comigo. Já perto de casa, ao passar em frente à padaria do bairro, pedi que ela entrasse e comprasse dez pães. Em casa, algumas amigas da família se reuniam. Nada sofisticado: pão, vinho, conversa e presença. O essencial que sustenta a vida quando quase tudo falta.

Minha filha fez o pedido e ouviu do dono da padaria, com a naturalidade de quem conhece a rua: — Sua irmã mais velha já passou aqui agora há pouco e levou pão.

Essa frase simples carrega uma escolha. Ali, o centro não era a venda. O lucro não comandava o gesto. O que estava em jogo era a relação. Ele sabia quem éramos. Sabia quem eram nossas filhas. Sabia de nossos passos. Não havia ali a frieza do caixa, mas a memória do convívio.

Na lógica dominante, seria diferente. Sem relação, o importante é vender. Pouco importa se alguém da mesma casa já comprou, pouco importa se o pão vai sobrar ou faltar. Pessoas viram clientes, encontros viram transações e o pão vira apenas mercadoria. Quando tudo vira mercadoria, a vida perde densidade, o rosto perde nome e a cidade perde alma.

Na comunidade, o pão ainda guarda outro sentido. Ele não é só produto — é partilha. Não é só consumo — é cuidado. O balcão não separa; aproxima. A padaria vira extensão da casa, e a rua, espaço de pertencimento. Ali, repartir vale mais que acumular, e conhecer vale mais que lucrar.

Este fato me fez lembrar de Jesus que sempre caminhou por lugares assim. Sentou-se à mesa com gente comum, repartiu o pão e o vinho, reconheceu rostos antes de contar moedas. Nunca perguntou quem podia pagar, mas quem tinha fome. Nunca fez da fé um negócio, nem da vida uma mercadoria. Seu gesto era simples e, por isso mesmo, profundamente subversivo.

Talvez o padeiro nem tenha se dado conta, mas naquele instante ele repetiu esse gesto. Ao não vender mais dez pães, afirmou — sem discurso — que a vida vale mais que o lucro, que a relação vale mais que a transação, que o cuidado vale mais que o acúmulo. Isso é política em estado puro, feita sem palanque e sem microfone.

Nos grandes centros, uma cena assim soa improvável. A cidade moldada pelo capital precisa do anonimato, da pressa e da indiferença. Transforma ruas em corredores, pessoas em números e vínculos em obstáculos. Comunidade atrapalha. Relação incomoda. Humanidade dá prejuízo.

Naquele dia, não deixamos de comprar pão. Ganhamos consciência. Entendemos que a salvação não mora fora da vida, nem depois dela. Ela se constrói quando o pão e o vinho deixam de ser mercadoria e voltam a ser sinal. Quando a cidade recusa ser apenas mercado e reaprende a ser casa.

E enquanto ainda existirem lugares onde o padeiro conhece nossas filhas pelo nome, o projeto da indiferença não se completa. Porque vínculo não é atraso — é enfrentamento.

Leonardo J. D. Campos

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Leonardo lança mais um livro

Noite inesquecível em Santo André marca aniversário e lançamento de novo livro


A noite de 24 de novembro de 2025 ficará registrada como um capítulo especial na trajetória do escritor e gestor público Leonardo Campos. Em plena segunda-feira, no aconchegante Restaurante Caboclo Bão, no Centro de Santo André, Leonardo celebrou seus 54 anos de vida e lançou oficialmente seu mais novo livro: “Proseando pelo tempo: entre passos, preces e lembranças”.

O encontro reuniu familiares, parentes, afilhadas, colegas de trabalho, amigos de fé, companheiros de caminhada política e pessoas que, de diferentes formas, fazem parte da história do autor. O ambiente acolhedor, marcado por abraços, conversas e reencontros, reforçou o clima de gratidão que atravessou toda a celebração.

“Foi uma noite muito especial. Agradeço de coração por cada gesto de carinho, cada mensagem enviada e cada abraço afetuoso. Poder celebrar a vida e, ao mesmo tempo, compartilhar o nascimento de mais um livro é um privilégio que guardo com muito carinho”, afirmou Leonardo.

Confira, em vídeo, um resumo do que foi este momento tão especial: Clique AQUI e assista.

Um livro que proseia com a vida

A nova obra reúne memórias, reflexões, preces e lembranças que atravessam a experiência humana — da infância à maturidade — sempre com a delicadeza e a sensibilidade características do autor. O livro chega como mais um passo no caminho literário de Leonardo, que tem dedicado sua escrita a transformar vivências em poesia, afeto e diálogo com o leitor.

Celebração, afeto e caminhada

Entre brindes, histórias compartilhadas e sorrisos largos, a noite reforçou laços e renovou esperanças. Para Leonardo, o momento simboliza não apenas mais um aniversário, mas a continuidade de um ciclo vivido com propósito, fé e compromisso com as pessoas que o acompanham.

“Seguimos juntos, proseando pela vida”, concluiu o autor, emocionado.

sábado, 22 de novembro de 2025

Proseando pelo tempo... no DGABC

O mais novo livro de Leonardo J. D. Campos foi destaque no Diário do Grande ABC, na coluna Memória, assinada pelo jornalista Ademir Medici. O fato é especial não apenas pela visibilidade, mas também pelo significado de ser reconhecido por um jornal que, há décadas, registra a história, a cultura e as vozes da região.

A matéria publicada pelo DGABC destaca a escrita do autor, marcada pela memória, pela prosa sensível e pelo olhar atento às origens. Trata-se de um reconhecimento que dialoga diretamente com aquilo que move sua produção literária: escrever a partir do que é, do que viveu e do lugar de onde vem.

Ser apresentado como um autor “daqui” — do Grande ABC — reforça a ideia de pertencimento que atravessa sua obra. A escrita, para Leonardo Campos, é também um exercício de preservação: das lembranças, das paisagens humanas e dos pequenos gestos que constroem a identidade coletiva.

A menção no Diário do Grande ABC representa, portanto, um estímulo para seguir escrevendo, publicando e compartilhando histórias que dialoguem com o leitor de forma honesta e humana. O autor agradece ao jornal pelo espaço e pela escuta, assim como aos leitores que acompanham seu trabalho e dão sentido a cada texto publicado.

Que esta seja mais uma página de um caminho construído com palavras, memória e afeto.

sábado, 19 de julho de 2025

Quando a extrema direita fere a si mesma

O anúncio de Donald Trump de aplicar tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros caiu como bomba. Tentou “agradar” o clã bolsonarista, mas acabou revelando algo mais profundo: a política externa dos EUA pode ser movida por caprichos e interesses ideológicos, sem medir as consequências. E quem paga a conta, claro, é o Brasil – em especial os setores econômicos que mais apoiaram o ex-presidente.

A medida, com data marcada para 1º de agosto, foi vista por muitos como uma jogada para pressionar o Judiciário brasileiro e blindar Bolsonaro. O efeito, no entanto, foi o oposto: enfraqueceu o bolsonarismo e empurrou Lula para o centro do tabuleiro, como líder sereno e preparado diante da crise. Mas que ninguém se engane: essa “vitória” carrega uma bomba-relógio econômica com potencial devastador.

A indústria brasileira pediu ao governo uma trégua: 90 dias de prorrogação, como noticiado pelo Diário. Alckmin, comedido, entrou em campo e lembrou que os EUA têm superávit comercial com o Brasil há 15 anos. A resposta de Trump foi clara e absurda: faz porque pode. Um ato de força, sem qualquer base racional – mas com alto poder destrutivo.

O mais irônico? As tarifas atingem em cheio o agronegócio – base fiel de Bolsonaro. Exportadores de carne, grãos e industrializados foram jogados no fogo cruzado de uma disputa que nada tem a ver com seus interesses. Bolsonaro, que sempre posou de defensor do setor, agora aparece como cúmplice de uma medida que ameaça empregos e contratos.

Lula, por sua vez, reagiu com maturidade, buscando articulação internacional e agindo como estadista. Ganhou pontos com o centro político, com o empresariado e reforçou a imagem de liderança responsável. No curto prazo, ponto para ele. O futuro, porém, pode cobrar caro.

Se os mercados se fecharem, os dólares somem. O câmbio dispara. A inflação sobe. O custo da comida pesa no bolso de quem já tem pouco. A instabilidade produtiva vira caos. E o desgaste político bate à porta. Se o governo demorar a reagir, o que era vantagem pode virar veneno.

A hora é de estratégia. Lula precisa aproveitar a crise para ampliar mercados, fortalecer laços com China, Europa e vizinhos latinos, proteger setores frágeis e apostar no mercado interno. E, acima de tudo, sustentar uma narrativa clara: o Brasil é soberano e não se curva a ameaças. Mas sem cair na tentação de alimentar o conflito – que só interessa aos que lucram com o caos.

Ganhar a disputa de hoje é importante, mas o povo julga é na hora da compra do arroz, do gás e do feijão. A inflação é cruel e silenciosa. E o brasileiro sabe muito bem quem estava no comando quando ela voltou ao prato.

É hora de ação, inteligência e coragem. Porque política, no fim, é isso: saber ler o tempo – e decidir de que lado da história se quer estar.

Leonardo J. D. Campos

Artigo publicado no Jornal Diário do Grande ABC (impresso e digital) 
- 17 de julho de 2025 - Pág. 2
Para acessar o artigo pelo Diário Virtual CLIQUE AQUI

sexta-feira, 17 de maio de 2024

LANÇAMENTO: Deleite da Vida...

Na noite desta sexta-feira (17/05/2024), no Saguão do Teatro Municipal de Santo André, foi realizado o evento de Lançamento do quarto livro de poemas do autor Leonardo J. D. Campos: "Deleite da vida ...e outros poemas", livro este publicado pela Editora COOPACESSO, com prefácio de Davi Damarques Barbosa.

Foi uma noite inesquecível, de encontros, reencontros, novas relações e, claro, muita música, dança e POESIA. Clique 👉 NESTE LINK 👈 e você poderá acompanhar, em vídeo, o que de melhor rolou neste evento.

Leonardo acolheu com carinho cada convidado e cada convidada, distribuiu autógrafos, falou de como foi escrito o livro, a escolha da capa e se emocionou ao mencionar que a escolha desta data para o lançamento do livro foi por conta de que neste dia, se estive vivo, seu pai, Pedro Dutra de Campos, estaria completando 90 anos de idade e a ele prestou-lhe homenagem.

O evento contou com a organização do cerimonial conduzido pela Elaine Fernandes Boaventura e pela Luara Souza Campos e a animação ficou a cargo do DJ GLASS. A parte musical contou com a apresentação de Hermes Rangel (voz e violão).

O público presente pôde apreciar ainda as apresentações de dança da "Academia de Dança Vandance" e do "Grupo de Dança Estilo Cigana de Magda Romena", este último, acompanhado por Davi Damarques (voz e violão). Ao final, para fechar com chave de ouro, microfone aberto para apresentações de poesias com diversos poetas.