segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O pão que o capitalismo não explica

Voltei para casa com o corpo cansado e o pensamento desperto. Eu e meu irmão passamos o dia inteiro levantando um muro de blocos tipo baiano que havia desabado depois dos ventos fortes que castigaram Santo André. Na periferia, quando algo cai, não se espera. A resposta vem do braço estendido, do mutirão improvisado, da solidariedade que antecede qualquer política pública.

No caminho de volta, minha filha mais nova vinha comigo. Já perto de casa, ao passar em frente à padaria do bairro, pedi que ela entrasse e comprasse dez pães. Em casa, algumas amigas da família se reuniam. Nada sofisticado: pão, vinho, conversa e presença. O essencial que sustenta a vida quando quase tudo falta.

Minha filha fez o pedido e ouviu do dono da padaria, com a naturalidade de quem conhece a rua: — Sua irmã mais velha já passou aqui agora há pouco e levou pão.

Essa frase simples carrega uma escolha. Ali, o centro não era a venda. O lucro não comandava o gesto. O que estava em jogo era a relação. Ele sabia quem éramos. Sabia quem eram nossas filhas. Sabia de nossos passos. Não havia ali a frieza do caixa, mas a memória do convívio.

Na lógica dominante, seria diferente. Sem relação, o importante é vender. Pouco importa se alguém da mesma casa já comprou, pouco importa se o pão vai sobrar ou faltar. Pessoas viram clientes, encontros viram transações e o pão vira apenas mercadoria. Quando tudo vira mercadoria, a vida perde densidade, o rosto perde nome e a cidade perde alma.

Na comunidade, o pão ainda guarda outro sentido. Ele não é só produto — é partilha. Não é só consumo — é cuidado. O balcão não separa; aproxima. A padaria vira extensão da casa, e a rua, espaço de pertencimento. Ali, repartir vale mais que acumular, e conhecer vale mais que lucrar.

Este fato me fez lembrar de Jesus que sempre caminhou por lugares assim. Sentou-se à mesa com gente comum, repartiu o pão e o vinho, reconheceu rostos antes de contar moedas. Nunca perguntou quem podia pagar, mas quem tinha fome. Nunca fez da fé um negócio, nem da vida uma mercadoria. Seu gesto era simples e, por isso mesmo, profundamente subversivo.

Talvez o padeiro nem tenha se dado conta, mas naquele instante ele repetiu esse gesto. Ao não vender mais dez pães, afirmou — sem discurso — que a vida vale mais que o lucro, que a relação vale mais que a transação, que o cuidado vale mais que o acúmulo. Isso é política em estado puro, feita sem palanque e sem microfone.

Nos grandes centros, uma cena assim soa improvável. A cidade moldada pelo capital precisa do anonimato, da pressa e da indiferença. Transforma ruas em corredores, pessoas em números e vínculos em obstáculos. Comunidade atrapalha. Relação incomoda. Humanidade dá prejuízo.

Naquele dia, não deixamos de comprar pão. Ganhamos consciência. Entendemos que a salvação não mora fora da vida, nem depois dela. Ela se constrói quando o pão e o vinho deixam de ser mercadoria e voltam a ser sinal. Quando a cidade recusa ser apenas mercado e reaprende a ser casa.

E enquanto ainda existirem lugares onde o padeiro conhece nossas filhas pelo nome, o projeto da indiferença não se completa. Porque vínculo não é atraso — é enfrentamento.

Leonardo J. D. Campos

Um comentário:

  1. Nobre escritor e amigo, Leonardo Campos. Um pequeno gesto de amor, se tornou grandioso diante da humildade do atendente da padaria. Ele não visou lucro, tão pouco ganância. Com certeza a educação que essa pessoa teve, ela carrega na vida. É muito importante esse seu texto, porque mostra que existem pessoas boas, que se importa com o próximo, parabéns, amigo.

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