Os dados divulgados pelo Painel do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, e repercutidos pelo Diário do Grande ABC (DGABC, quarta-feira, 7 de janeiro de 2026, caderno Setecidades, p. 3), informam que a região registrou um aumento de 6% nas denúncias de intolerância religiosa em 2025. Foram 35 ocorrências até 25 de dezembro, contra 33 no mesmo período do ano anterior. À primeira vista, alguém pode tratar isso como uma oscilação estatística. Eu não consigo.
Não consigo porque, por trás de cada número, existe uma pessoa constrangida. Um corpo violentado simbolicamente. Uma fé interrompida no meio do canto, do toque do atabaque, da oração ou até do silêncio sagrado. Intolerância religiosa não é abstração acadêmica: é medo concreto. É gente que passa a medir o volume da própria crença para não incomodar quem nunca se incomodou em respeitar.
A matéria publicada pelo DGABC lembra que o Dia Nacional da Liberdade de Cultos, celebrado em 7 de janeiro, nasce de um decreto de 1890 que prometia garantir direitos a todas as religiões. Esse princípio foi reafirmado pela Constituição Federal de 1988, que assegura a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença e a proteção aos locais de culto e às suas liturgias. No papel, o direito existe. Na vida real, ele segue sendo violado — todos os dias.
No plano local, Santo André avançou ao instituir a Lei Ordinária nº 10.348, de 19 de novembro de 2020, de autoria do então vereador Alemão Duarte, que criou o Dia Municipal de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 20 de agosto. Não se trata apenas de um marco simbólico. A lei afirma objetivos claros: fortalecer a democracia, respeitar a diversidade religiosa, incentivar o diálogo entre diferentes crenças e construir uma cultura de paz fundada na justiça social e na defesa da vida. A escolha da data homenageia Quitéria Vieira, referência da Umbanda, falecida em 20 de agosto de 1989 — um gesto que reconhece, ainda que tardiamente, a dor histórica imposta às religiões de matrizes africanas.
Ainda assim, os dados mostram que seguimos falhando. O pesquisador Marco Brito, doutor em Ciências da Religião, aponta que parte do aumento das denúncias decorre do maior acesso aos canais de registro e do reconhecimento de direitos. É verdade. Mas isso não consola. Pelo contrário: escancara o quanto essas violências sempre existiram e foram naturalizadas, silenciadas, empurradas para fora do debate público.
As religiões de matrizes africanas continuam sendo as principais vítimas. A fala de Mãe Fran, liderança do candomblé em São Bernardo, é um retrato duro dessa realidade: denúncias recorrentes, ameaças, episódios de truculência policial e a recusa em reconhecer o caráter religioso de suas celebrações. Não é perturbação do sossego. É racismo religioso — herança direta de um país que demonizou a fé negra para justificar a escravidão e nunca encarou esse passado com a seriedade necessária.
Quando até uma pessoa católica aparece entre as vítimas, o dado não relativiza o problema. Ele amplia o alerta. Mostra que a intolerância cresce em ambientes de polarização, ódio ao diferente e empobrecimento do diálogo público. Hoje é contra o terreiro. Amanhã será contra qualquer expressão de fé que não se curve ao padrão dominante.
Liberdade religiosa não é favor, nem concessão. É direito humano fundamental. Mas direito só se sustenta quando vira prática social, política pública e postura cotidiana. Enquanto alguém precisar negociar sua fé com o vizinho, com o Estado ou com a polícia, essa liberdade seguirá incompleta.
Escrevo a partir de um lugar claro — humano e político. Minha indignação não é neutra, nem acadêmica. Ela nasce da vivência comunitária, do diálogo inter-religioso e da convicção de que a fé, qualquer fé, só faz sentido quando promove vida, dignidade e encontro. Defender a liberdade de cultos não é defender uma religião específica. É defender o direito de existir sem medo.
Que os dados não sirvam de anestesia. Que leis como a de Santo André não fiquem restritas ao calendário oficial. E que o combate à intolerância religiosa deixe de ser discurso para se tornar compromisso real. Porque intolerância não é estatística. É ferida. E ferida aberta exige cuidado, coragem e ação.
Leonardo J. D. Campos

Concordo totalmente com sua reflexão, Leonardo!
ResponderExcluir