segunda-feira, 6 de abril de 2026

O desejo em tempos de tudo pronto

Há uma crise silenciosa atravessando o nosso tempo — e ela não aparece nos indicadores econômicos, nem nos discursos oficiais. Ela se revela em algo mais íntimo: no esvaziamento do desejo.

As pessoas seguem vivendo. Acordam cedo, trabalham, pagam contas, percorrem a cidade, opinam nas redes. Tudo parece em ordem. Mas, no fundo, algo essencial parece ter enfraquecido: a capacidade de desejar de verdade. Não apenas querer o próximo consumo ou a próxima distração, mas desejar o novo, o diferente, aquilo que ainda não existe — e que, por isso mesmo, precisa ser construído.

E isso não acontece por acaso. Vivemos sob uma lógica que organiza a vida para que tudo venha pronto. A comida chega por aplicativo, o entretenimento é infinito e as respostas aparecem antes mesmo das perguntas. O mundo cabe na palma da mão, mas, curiosamente, a vida parece cada vez menor. Há uma espécie de cansaço que não vem só do excesso de tarefas, mas do excesso de estímulos vazios. Tudo é rápido, acessível, imediato e, ao mesmo tempo, raso.

Nesse cenário, o desejo — que exige tempo, espera e construção — vai sendo substituído por impulsos. Pequenas satisfações que aliviam por instantes, mas não preenchem. E, aos poucos, quase sem perceber, a gente desaprende a desejar. Talvez isso fique mais claro quando olhamos para algo simples da vida. Um namoro “das antigas” não começava pronto; havia a paquera, o cuidado no olhar, a conversa que ia ganhando intimidade aos poucos. Depois vinha o pedido, o compromisso assumido, o tempo de conhecer de verdade. O noivado, o casamento... cada etapa com seu sentido, seu tempo, sua construção. Não era só uma sequência de fatos, era um caminho.

E é nesse caminho que o desejo se alimenta. É ali que nascem as expectativas, os sonhos e o sentido de futuro. Porque desejar não é ter — é construir. Isso vale para o amor, mas também vale para a vida.

O que eu quero construir? O que eu quero ser? Qual é o sentido da minha vida? Para onde eu estou indo?

Essas perguntas, que antes atravessaram a juventude e acompanhavam a vida adulta, hoje muitas vezes nem chegam a ser feitas. E, quando aparecem, encontram dificuldade de resposta, porque o mundo foi sendo reduzido ao agora, ao imediato, ao instante seguinte. O depois — quando existe — pouco importa.

Mas essa não é apenas uma questão íntima, é profundamente política. Uma sociedade que não deseja, não se move. Um povo que perde a capacidade de imaginar um futuro diferente torna-se mais tolerante com o que já está dado — mesmo quando esse “dado” é injusto. Afinal, por que lutar por melhores condições de vida, por mais direitos e por dignidade, se a esperança de mudança já não pulsa com a mesma força?

O que se instala, então, não é a ausência de sofrimento, mas o acúmulo dele — um sofrimento que não encontra canal, escuta nem horizonte coletivo. Esse tipo de dor não se transforma em luta; ele se converte em cansaço. E o cansaço, quando se prolonga, acaba se tornando conformismo. É assim que se constrói uma apatia organizada.

Nesse ambiente, até a política se esvazia. Torna-se mais superficial, mais imediata, mais barulhenta — mas cada vez menos transformadora. Discute-se muito, mas muda-se pouco. Talvez porque esteja faltando algo simples e, ao mesmo tempo, essencial: o encontro. Falta tempo para sentar e conversar sem pressa. Falta escuta de verdade. Falta olhar no olho. Falta o espaço onde a palavra não precisa disputar atenção com notificações.

Falta a roda.

A roda de conversa, de música, de poesia, de partilha. Em volta de um violão, de um pandeiro, de um cavaco — ou mesmo de uma mesa simples. Lugares onde a vida não é performada, mas vivida; onde as histórias circulam, onde o silêncio também fala, onde as pessoas se reconhecem e se constroem mutuamente. Pode parecer pouco diante de tantos problemas grandes, mas não é. É nesses espaços que o desejo reaprende a existir, porque o desejo não nasce do excesso nem do imediato, mas da falta, do tempo e da construção compartilhada.

Ele não floresce no isolamento, mas no encontro, naquilo que se constrói entre pessoas que se reconhecem e se escutam. Por isso, retomar o desejo é também um ato político, na medida em que significa recuperar a capacidade de se abrir ao outro, de investir no encontro e de acreditar que a realidade pode ser transformada mesmo quando ela parece dura demais.

Resistir à lógica do “tudo pronto” é, no fundo, defender a própria vida em sua dimensão mais humana, aquela que não se contenta com respostas rápidas, mas insiste em construir sentidos. Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja apenas econômico ou institucional, mas existencial: como reacender o desejo em uma sociedade treinada para não desejar?

A resposta não virá pronta — e talvez seja justamente nesse caminho, que precisa ser vivido, partilhado e construído coletivamente, que ainda resida a possibilidade de esperança.

Leonardo Campos

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