Tem algo que o tempo me ensinou — não de uma vez, mas no cansaço das horas, na vida acontecendo sem aviso. Quando a gente abre o livro da história, quase nunca encontra uma versão única. O que pulsa ali são disputas; narrativas que se enfrentam, cada qual defendendo o seu quadrado ou os seus privilégios. E eu fui entendendo, aos poucos, que assumir um posicionamento não é luxo — é quase uma obrigação se quisermos, de fato, pertencer a algum lugar nesta vastidão de mundo em que vivemos.
Essa consciência não veio pronta para mim. Foi sendo moldada no dia a dia, nas conversas simples — muitas vezes na calçada, no portão, no fim de tarde —, nas dores que não saem nos noticiários e nas dúvidas que insistem em visitar a madrugada. É uma construção feita nos desencontros que nos obrigam a enxergar o que a pressa tenta esconder: a verdade das dificuldades diárias, o toque áspero dos pés descalços nos atalhos da vida e o silêncio doído de um prato vazio que, às vezes, fala mais alto que qualquer discurso.
É nesse ponto que a pergunta se torna inevitável — e, confesso, já me pegou mais de uma vez: de que lado estamos?
Pergunto isso porque ainda me causa espanto ouvir tanta gente dizer que é cristã enquanto defende a pena de morte, a ditadura ou a tortura. Que cristianismo é esse? Parece contraditório quando olhamos para o que, na prática, significa seguir Jesus Cristo. Será que já nos demos conta de que segui-lo é, na essência, seguir um prisioneiro? Um homem que foi perseguido, torturado e condenado à morte pelo sistema político da sua época?
Seguir a Jesus Cristo é, portanto, assumir um lado na sociedade. E eu fui compreendendo isso na caminhada. É escolher defender a vida, a justiça e a promessa de “que todos tenham vida e a tenham em abundância”. É colocar-se, sem hesitação, "na fileira dos oprimidos" e não se calar diante das injustiças que trituram o próximo. É entender que o “amar uns aos outros” não aceita notas de rodapé: é um amor que não pergunta antes de acolher, que não seleciona quem merece.
Assumir essa coerência não é tarefa fácil — eu sei disso na pele. E custa caro. No Brasil de hoje, marcado por uma polarização que atravessa até as relações mais simples, essa postura incomoda. As pessoas já não se escutam como antes. Aqueles encontros na praça, no fim da tarde, para “jogar conversa fora” e deixar o tempo passar, parecem coisa de outro tempo — quase uma lembrança distante de quando o diálogo ainda tinha morada.
Essa disseminação de rancor me inquieta profundamente, mas não me permite a indiferença. É justamente nesse cenário que encontro meu prumo ao escolher ser discípulo de Jesus Cristo. Não o Cristo distante, intocável, mas Aquele que nasceu na pobreza de uma manjedoura porque não havia lugar para Ele nas hospedarias do sistema. Sigo aquele que gastou a sola do pé na poeira, que olhou nos olhos dos invisíveis e que ousou sentar à mesa com quem o mundo já tinha descartado — e, sendo sincero, é esse jeito que me desafia todos os dias.
Na crueza dos fatos, ser discípulo é entender a trajetória de um prisioneiro político que incomodou o status quo ao denunciar a hipocrisia das leis que pesam sobre os pequenos enquanto protegem os grandes. Ele mexeu nas estruturas e pagou o preço mais alto, sendo fiel até o último suspiro à urgência da vida que pregava. E é essa mesma urgência que, muitas vezes, me tira do conforto e me coloca de pé na lida da comunidade — seja nas missas aos domingos, nas reuniões da associação, na escrita que resgata a memória local ou na luta contra a burocracia que insiste em apagar vozes.
Escolher esse caminho não é romantizar a dor — é assumir o compromisso de não fugir dela quando ela revela injustiça. Ainda assim, eu escolho acreditar. Escolho não deixar o coração endurecer enquanto as praças permanecem vazias de diálogo. Escolho tentar, todos os dias, ser minimamente coerente com o que escrevo e com o que digo professar — mesmo sabendo que nem sempre consigo.
Porque, no fim das contas, a gente não escolhe apenas uma versão da história para observar de longe. A gente escolhe o tipo de história que quer ajudar a construir com as próprias mãos.
Leonardo J. D. Campos

Muito lúcido seu texto, Leonardo!
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