Muitas coisas marcaram minha infância. Algumas são duras de revisitar. Outras, no entanto, permanecem como um abrigo dentro da memória — daquelas que aquecem o coração e continuam ensinando, mesmo depois de tantos anos.
Uma dessas lembranças me leva às noites quentes do verão mineiro, lá em Piacatuba. Eu saía com meu pai pelo pasto do sítio onde morávamos, carregando um vidro nas mãos. Nossa missão era simples e mágica: procurar vaga-lumes.
Corria atrás daquelas pequenas luzes vivas com um encantamento difícil de explicar. Quando conseguia capturar alguns — dez, quinze, talvez — colocava-os dentro do vidro com todo cuidado. Depois, levava aquele pequeno universo luminoso para o quarto e o acomodava acima do berço onde dormia. Era a minha “luz elétrica”.
E que luz.
Numa casa simples, de pau a pique, onde não havia energia elétrica e a lamparina a querosene era o recurso possível, aqueles vaga-lumes iluminavam mais do que o ambiente. Iluminavam a imaginação, o sentimento, os sonhos, a própria infância.
Hoje, olhando para esse tempo, me pergunto se, de alguma forma, não perdemos a capacidade de enxergar essas pequenas luzes.
Vivemos cercados de tecnologia, de telas brilhantes, de uma iluminação que nunca se apaga — mas, curiosamente, parece que tudo anda mais escuro. Temos luz em excesso, mas falta brilho. Falta encantamento.
E talvez falte também sentido.
Porque, no fundo, a vida sempre nos chamou a ser mais do que consumidores de luz. Sempre nos chamou a sermos luz.
Pensando nisso, me fez lembrar das palavras de Jesus, que atravessam o tempo com a mesma força daquelas noites de outrora: “Vocês são a luz do mundo… Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma vasilha… Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens…”(Mt. 5, 13-16)
Naquele tempo, eu saía com meu pai em busca de luz para iluminar o quarto. Hoje, percebo que o caminho é outro: não se trata mais de procurar fora, mas de deixar acender por dentro.
Os vaga-lumes que eu guardava no vidro iluminavam a noite por algumas horas. A luz que somos chamados a carregar pode iluminar caminhos inteiros — não pela intensidade, mas pelo sentido.
Talvez o desafio dos nossos dias não seja buscar mais luz — mas reaprender a não escondê-la.

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