quinta-feira, 5 de março de 2026
O Brasil que acorda antes do sol
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Tempo de escolha
Este ano de 2026 se impõe a nós como um tempo de disputa: disputa de sentidos, de projetos, de valores. Nada está dado. O país que habitamos segue sendo um campo de batalha entre a vida que insiste em florescer e forças que apostam no lucro, no privilégio e na exclusão. Este ano não pede neutralidade; exige posicionamento claro, em alto e bom som.
Não haverá como escapar das lutas que nos atravessam. E elas não serão apenas individuais. Serão, sobretudo, lutas coletivas, travadas no cotidiano das periferias, nos locais de trabalho, nas escolas, nas igrejas, nas ruas e, de modo decisivo, nas urnas. A fé cristã, quando fiel ao Evangelho, não se acomoda diante da injustiça. Jesus não foi neutro diante da fome, da opressão e da hipocrisia do poder. Ele tomou partido da vida.
Este ano nos desafia a fazer diferente também na política. A romper com a indiferença travestida de prudência, com o discurso que iguala opressores e oprimidos, com a ideia de que “tanto faz”. Não faz. As escolhas importam. Importam quem governa, para quem governa e a serviço de quais interesses.
Coragem será necessária para defender o que é público, para afirmar que direitos não são favores, para sustentar que ninguém é descartável. Coragem para dizer que democracia se constrói com participação, não com ódio; com diálogo, não com armas; com políticas que cuidam, não com discursos que ferem.
As eleições não se definem por si só. Não se tratam apenas de um rito formal, mas de um chamado à responsabilidade histórica. Votar é um gesto político, mas também ético. É decidir de que lado da história queremos estar: se ao lado da vida concreta do povo ou dos privilégios de poucos; se ao lado da esperança organizada ou do medo manipulado.
Sonhar com um Brasil mais justo, solidário e fraterno não é utopia vazia. É herança de lutas, de sangue, de suor e de fé. É afirmar que o pão deve ser repartido, que a terra deve cumprir sua função social, que a economia deve servir à vida e que o Estado não pode abandonar os mais pobres. “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mateus 25,40).
Que possamos estar atentos, críticos e comprometidos. Que nossa fé não se feche nos templos, mas caminhe pelas ruas. Que nossa esperança não seja ingênua, mas organizada. E que nossa ação política seja expressão do amor que o Evangelho exige: um amor que incomoda, que confronta e que transforma.
Porque este ano será decisivo. E a história — como sempre — será escrita pelas escolhas que fizermos, individualmente e como povo. Que saibamos escolher a vida, a justiça e o futuro.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
O chão da cultura no Grande ABC
Partindo desta ótica, me volto ao ABC paulista, um território onde a cultura nunca foi luxo. Aqui, a arte sempre esteve ligada à sobrevivência. Conheço músicos que atravessam a cidade após um dia inteiro de trabalho; escritores que escrevem de madrugada; poetas que bancam a própria publicação; artistas que improvisam ateliês em casa; atores que ensaiam sem saber se haverá público ou cachê. É nesse cotidiano silencioso que a cultura resiste e se reinventa.
Quando um filme brasileiro ganha o mundo, ele não nasce do nada, mas do esforço, da precariedade e da persistência que começam nos bairros, nas periferias, nos coletivos culturais, nos espaços comunitários e nos editais disputados com enorme dificuldade.
Vale lembrar que o Brasil viveu, não há muito tempo, um período marcado por ataques deliberados à cultura. A arte foi tratada como inimiga, o artista como suspeito e o investimento cultural como desperdício. Esse discurso desceu para as cidades, atingiu o ABC, fechou espaços, interrompeu projetos e empurrou muitos profissionais para a informalidade. O empobrecimento gerado ali foi também simbólico e coletivo, e seus efeitos ainda são sentidos.
Por isso, é fundamental reafirmar: cultura é trabalho, é direito e é política pública. Não existe cinema premiado sem Estado presente, assim como não existe cultura viva sem territórios fortalecidos. O ABC tem talentos suficientes para ocupar palcos, telas e feiras em qualquer lugar do mundo. O que falta não é criatividade, é prioridade política.
Celebrar um prêmio internacional só faz sentido quando ele se transforma em acesso, orçamento, continuidade e dignidade para quem faz arte no cotidiano. É justo comemorar quando o mundo aplaude o cinema brasileiro, mas a vitória só se completa quando esse reconhecimento chega aqui dentro como política pública. Sem isso, o aplauso é distante; com isso, vira sustento, pertencimento e futuro.
Leonardo J. D. Campos
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Dia do Mártir São Sebastião
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Quando a fé se torna ação prática

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Quando a fé vira alvo
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
O pão que o capitalismo não explica
Voltei para casa com o corpo cansado e o pensamento desperto. Eu e meu irmão passamos o dia inteiro levantando um muro de blocos tipo baiano que havia desabado depois dos ventos fortes que castigaram Santo André. Na periferia, quando algo cai, não se espera. A resposta vem do braço estendido, do mutirão improvisado, da solidariedade que antecede qualquer política pública.
No caminho de volta, minha filha mais nova vinha comigo. Já perto de casa, ao passar em frente à padaria do bairro, pedi que ela entrasse e comprasse dez pães. Em casa, algumas amigas da família se reuniam. Nada sofisticado: pão, vinho, conversa e presença. O essencial que sustenta a vida quando quase tudo falta.
Minha filha fez o pedido e ouviu do dono da padaria, com a naturalidade de quem conhece a rua: — Sua irmã mais velha já passou aqui agora há pouco e levou pão.
Essa frase simples carrega uma escolha. Ali, o centro não era a venda. O lucro não comandava o gesto. O que estava em jogo era a relação. Ele sabia quem éramos. Sabia quem eram nossas filhas. Sabia de nossos passos. Não havia ali a frieza do caixa, mas a memória do convívio.
Na lógica dominante, seria diferente. Sem relação, o importante é vender. Pouco importa se alguém da mesma casa já comprou, pouco importa se o pão vai sobrar ou faltar. Pessoas viram clientes, encontros viram transações e o pão vira apenas mercadoria. Quando tudo vira mercadoria, a vida perde densidade, o rosto perde nome e a cidade perde alma.
Na comunidade, o pão ainda guarda outro sentido. Ele não é só produto — é partilha. Não é só consumo — é cuidado. O balcão não separa; aproxima. A padaria vira extensão da casa, e a rua, espaço de pertencimento. Ali, repartir vale mais que acumular, e conhecer vale mais que lucrar.
Este fato me fez lembrar de Jesus que sempre caminhou por lugares assim. Sentou-se à mesa com gente comum, repartiu o pão e o vinho, reconheceu rostos antes de contar moedas. Nunca perguntou quem podia pagar, mas quem tinha fome. Nunca fez da fé um negócio, nem da vida uma mercadoria. Seu gesto era simples e, por isso mesmo, profundamente subversivo.
Talvez o padeiro nem tenha se dado conta, mas naquele instante ele repetiu esse gesto. Ao não vender mais dez pães, afirmou — sem discurso — que a vida vale mais que o lucro, que a relação vale mais que a transação, que o cuidado vale mais que o acúmulo. Isso é política em estado puro, feita sem palanque e sem microfone.
Nos grandes centros, uma cena assim soa improvável. A cidade moldada pelo capital precisa do anonimato, da pressa e da indiferença. Transforma ruas em corredores, pessoas em números e vínculos em obstáculos. Comunidade atrapalha. Relação incomoda. Humanidade dá prejuízo.
Naquele dia, não deixamos de comprar pão. Ganhamos consciência. Entendemos que a salvação não mora fora da vida, nem depois dela. Ela se constrói quando o pão e o vinho deixam de ser mercadoria e voltam a ser sinal. Quando a cidade recusa ser apenas mercado e reaprende a ser casa.
E enquanto ainda existirem lugares onde o padeiro conhece nossas filhas pelo nome, o projeto da indiferença não se completa. Porque vínculo não é atraso — é enfrentamento.
Leonardo J. D. Campos



